Rosana Nicchio, 61 anos, é síndica profissional e produtora cultural

“O sentido da sindicatura é fazer diferença no condomínio”

 

DESDE CRIANÇA sou determinada e empenhada em fazer as coisas darem certo. Eu não falava quase nada até os cinco anos de idade. Por isso, um médico recomendou à minha mãe que me colocasse na escola para conviver com outras crianças, afinal meus irmãos já estudavam e eu ficava com adultos. Nós éramos pobres, mas minha mãe acreditou que eu poderia me desenvolver melhor em uma escolinha particular do que no pré-primário municipal. Para arcar com essa despesa, ela começou a lavar roupa para fora. Lembro-me de uma vez trazer um recado para ela, de que a mensalidade estava atrasada. Eu percebia o sacrifício e retribuía sendo uma aluna dedicada à aprendizagem. Tanto que ao ingressar no antigo primário, em escola pública, fui direto para o segundo ano. Ah, além da fala, desenvolvi habilidades em matemática e raciocínio lógico e ajudava os colegas a fazerem cálculos.

 

Síndica Rosana Nicchio

Meu pai trabalhou em fábricas como Alpargatas e Antarctica, mas precisou se aposentar por invalidez, devido a um problema no coração. Aliás, um episódio triste para todos nós foi a perda do meu irmão aos 20 anos, que teve uma parada cardíaca. Morávamos na Penha, e eu queria muito cursar o segundo grau em uma escola técnica de processamento de dados, em São Miguel Paulista, mas o dinheiro não dava. Minha irmã trabalhava e se ofereceu para me ajudar. Ela ganhava pouco, e eu tentei recompensar o investimento dela com excelentes notas e certificados. Juntei essas conquistas a uma carta de solicitação de bolsa de estudos e enviei ao Presidente da República.  Não é que deu certo? Consegui concluir o curso como bolsista. Ainda na fase do colégio, estagiei no Banco Real. Aos 16 anos, ingressei na faculdade de Economia, e continuei no banco. Com 18 anos, eu era procuradora da agência, e com 20, meu pai teve de me emancipar para que eu pudesse assinar como tesoureira. Eu usava roupas sóbrias para parecer mais velha.

Em 1987, com 24 anos, fui para o Citibank, recebendo excelente salário. Ali, conheci o meu futuro marido, que era cliente da agência. Nos casamos em menos de um ano. Ele atuava com investimentos e eu tinha feito pós-graduação em mercado de capitais, então me propôs sair do emprego e trabalhar com ele. Aceitei. Nós trabalhamos muito, viajamos, tivemos dois filhos incríveis e partilhamos de nossa paixão por obras – amávamos construir, reformar e mobiliar. Construímos duas casas na Serra da Cantareira, além de reformarmos a nossa espaçosa casa no Alto de Santana. Vivemos bem por um tempo, mas fui me dando conta do quanto ele era possessivo e controlador e decidi me separar.

Depois do divórcio, passei a morar com nossos filhos, já adolescentes, em um apartamento de 90 m² em um prédio de 24 unidades, o Siena Tower, também no Alto de Santana. Deixei uma vida confortável para trás, fiquei com a parte de produção cultural, que era um braço da nossa empresa, e improvisei meu escritório no quarto de empregada. Mas eu me sentia livre para abraçar coisas novas, e vieram, como a gestão condominial. Comecei como conselheira. Eu já trabalhava em home office, por isso vivia mais o dia a dia do condomínio e observava detalhes que passavam despercebidos ao síndico. Ele valorizava os meus apontamentos e me indicou para o lugar dele na eleição seguinte.

Estou no posto há 18 anos. Logo no início da gestão, implantei o controle diário do consumo de água e foi detectado um grande número de vazamento nas unidades. Com um mês de trabalho efetivo, reduzimos a despesa de R$ 4.200 para cerca de R$ 2 mil. Outra coisa positiva foi ter conseguido reduzir a inadimplência. Pude, ainda, implantar a coleta seletiva de lixo. Eu me inspirei nas placas de ‘Favor Arrumar’ e ‘Não Perturbe’ de portas de quartos de hotel, e criei uma versão para o morador que quisesse participar da reciclagem, instruindo para que colocasse a sinalização na maçaneta da unidade para que a funcionária do condomínio tocasse a campainha quando houvesse lixo reciclável.

Há sete anos, migramos para portaria remota, o que nos trouxe mais economia, segurança e atualização tecnológica. O condomínio foi pioneiro na região a ter leitor facial, o que me deu um alívio imenso porque essa tecnologia possibilita o acesso do morador e de visitantes à eclusa com total rapidez.   

Tivemos obras também (risos!). Modificamos a cor da fachada, fizemos a substituição do gradil por fechamento em vidro, criamos uma área de convivência na parte da frente do condomínio, refizemos o paisagismo e a calçada, e na entrada trocamos a cobertura de policarbonato por vidro. O nosso prédio ficou tão bonito que recebi convites para administrar outros condomínios da rua. Assim, me tornei síndica profissional. Eu cuido de dois condomínios de alto padrão, sendo que em um deles estou no cargo desde 2019. Mas teve um outro condomínio que eu preferi não renovar o contrato porque ele não estava preparado para mudanças. Para mim, um síndico tem de entregar mais do que a expectativa dos condôminos, porém, quando eles não aceitam mudanças você não vai conseguir realizar nada. Então não precisam de você. O sentido da sindicatura é fazer a diferença no condomínio. A gestão tem de evoluir.

Eu gosto de prestar um serviço personalizado, o que inclui várias e várias visitas aos condomínios, principalmente porque eu acompanho de perto o trabalho dos colaboradores. Em geral, são antigos, carregam vícios que podem, por exemplo, pôr em risco a segurança do edifício, como abrir o portão da garagem mediante uma buzinada do morador. Esse processo de desconstrução de hábitos precisa ser repetido várias vezes e tem de ficar claro aos funcionários o porquê dos protocolos. Quando eles compreendem, passam a colaborar melhor.

Em geral, lido bem com os desafios da sindicatura. Já fui uma pessoa mais rígida, mas ter começado a atuar no ramo de produção artística me modificou. Trabalho com música clássica em recitais, concertos com orquestras internacionais, e com peças teatrais em parques. A arte me deixou mais leve e eu chego mais feliz aos condomínios. Em 2017 veio outra transformação. Eu queria viver a experiência de entrega e serviço ao próximo. Então me voluntariei para uma missão da Igreja Católica em Moçambique, um dos países mais pobres do mundo. Voltei ao Brasil bastante sensibilizada. Hoje, sou mais compassiva e atuante no voluntariado. Sou também mais empática e tolerante, o que se estende às relações condominiais”.

Rosana Nicchio, em depoimento a Isabel Ribeiro


Matéria publicada na edição 299 abr/24 da Revista Direcional Condomínios

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