Como reaproveitar as águas pluviais nos condomínios

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O reuso da água da chuva para fins não potáveis é uma das boas alternativas que os síndicos encontram para diminuir o consumo de água nas edificações. Além de configurar prática socioambiental responsável, ao contribuir para reduzir os impactos sobre o patrimônio natural, a medida pode resultar em uma economia média de 20% sobre a conta ao final do mês. Mas o sistema de captação tem que estar adequado à realidade do empreendimento. Segundo o engenheiro Paulo Augusto Romera, do Centro Tecnológico de Hidráulica (CTH) do Departamento de Águas e Energia Elétrica de São Paulo (DAEE), o mais utilizado é o de captação simples, que emprega caixas d’ água. “De qualquer maneira, a instalação vai depender das condições de nível do terreno e das necessidades dos moradores”, esclarece.

Antes de iniciar o projeto, Romera afirma que é imprescindível conhecer o regime de chuvas do local, pois quanto maior o reservatório mais alto será o custo, no entanto, haverá maior disponibilidade de água. “Na zona central da cidade de São Paulo a média de chuva no mês de janeiro costuma ser de 239 milímetros. Se toda essa água fosse reservada, para cada 100 metros quadrados seriam 23.900 litros de água”, enfatiza. Conforme o engenheiro calcula, um condomínio que pretenda aproveitar as águas pluviais para irrigar um jardim de 100 metros quadrados de área, precisará de seis a oito litros por metro quadrado para a rega diária. “Portanto, para esse prédio será necessário um reservatório de 70 metros cúbicos para cada mês de consumo, considerando uma rega a cada três dias”, conclui Romera.

POR ONDE COMEÇAR
Para Audrey Ponzoni, diretor de projetos de uma grande administradora de condomínios, a proposta de reaproveitamento da água da chuva deve contemplar, basicamente, “a captação em áreas impermeáveis (telhados, lajes e pisos)”, além dos processos de “filtragem, armazenamento e descontaminação, tornando-a adequada para seu uso em áreas internas e externas”. É preciso realizar um estudo de viabilidade técnica e econômica de sua implantação, considerando-se todos esses aspectos. Constatada a viabilidade, o próximo passo é a execução do projeto, especifica o diretor. “Seu estudo deve propor o alcance do projeto, o número de moradores, os fins para os quais será utilizada a água de chuva e a demanda de mão de obra a ser definida pelo projetista do sistema”, explica. Uma vez feita a análise geral, ele sugere a promoção de uma assembleia específica para apresentar o plano financeiro aos moradores.

Os especialistas também recomendam fazer uma análise do que é desperdiçado no condomínio. No caso do Condomínio Athenas Garden, localizado na zona sul de São Paulo, o subsíndico e engenheiro civil Francisco Henrique da Costa Patrão está sempre de olho na média de consumo per capita, que é de 200 litros por dia. “Caso a quantidade ultrapasse a média histórica, há desperdício ou vazamento”, alerta. O Athenas Garden comporta 81 apartamentos e cerca de 320 condôminos. “A média ideal de consumo mensal no condomínio seria de 1.920 metros cúbicos, porém a média atual é de 2.684 metros cúbicos, portanto, são desperdiçados 764 mil litros de água por mês”, analisa Patrão.

Uma das alternativas em curso no condomínio para diminuir o consumo é a implantação, em breve, de um sistema de reuso da água pluvial. Para explicar sua necessidade aos moradores, Francisco Patrão distribuiu um boletim informativo sobre os critérios utilizados pela Sabesp para estipular as tarifas de consumo por metro cúbico (disponíveis no site da companhia), além de um demonstrativo analítico, o qual expõe todo o custo e consumo nos últimos doze meses. O levantamento permitiu a Francisco Patrão observar a quantidade de água que estava sendo desperdiçada com lavagens das áreas comuns e “quanto poderia ser economizado”.

CUSTOS E BENEFíCIOS
A partir daí, foi desenvolvido um estudo do projeto. O subsíndico revela que seu investimento total, que inclui a instalação de oito caixas d´água interligadas, de 2.000 litros cada, é de R$ 10.000,00. Para Patrão, a relação custo benefício é viável, pois, além de ajudar o meio ambiente ao economizar água potável, o valor da conta irá diminuir consideravelmente no final do mês. Patrão calcula uma economia mensal de até R$ 2.500,00. “Desta forma, o valor do investimento será pago já nos primeiros cinco meses de utilização do sistema de captação e manejo dessas águas”, observa. Para que os síndicos estejam seguros dos benefícios do sistema, o administrador Audrey Ponzoni aconselha justamente que façam esse tipo de análise de viabilidade técnica e de retorno do investimento. Entre seus clientes, por exemplo, dois condomínios acabaram desistindo de implantar o projeto em função dos investimentos elevados. “O mais adequado é que os prédios já sejam projetados com esse sistema”, opina Ponzoni.

Paulo Maccaferri, engenheiro civil e síndico do Condomínio Edifício Stella Solaris, construído há 25 anos em Moema, zona sul de São Paulo, afirma que a construtora já entregou o edifício com o sistema de captação instalado. Neste caso, os condôminos percebem o tamanho da economia que o reuso proporciona quando chegam os períodos de pouca chuva. “Na fase do tempo seco, só o meu apartamento paga em média 20% a mais de água por mês”, afirma Maccaferri.

Um grande cuidado, entretanto, os síndicos devem ter: o diretor de projetos Audrey Ponzoni destaca a importância da manutenção preventiva do sistema, com “inspeções periódicas nos reservatórios, bombas e ralos”. E para diminuir o risco de contaminação, “deve-se evitar o uso de produtos nocivos à saúde nas áreas de captação”, finaliza Ponzoni.

(com reportagem de Tainá Damaceno; edição: Rosali Figueiredo)

REUSO DAS ÁGUAS DA CHUVA NOS CONDOMÍNIOS: ETAPAS PARA A IMPLANTAÇÃO DE UM SISTEMA

Por Francisco Henrique da costa Patrão (do condomínio Athenas Garden)

1. Fazer a análise da viabilidade econômica do projeto;

2. Para instalar o reservatório, procurar área disponível abaixo do nível do coletor principal da água da chuva (é a tubulação que direciona a água coletada para a rua);

3. “Sangrar” esta tubulação com uma conexão tipo Y ou T e interligá-la a uma caixa d’ água com boia;

4. Colocar pedriscos (brita tipo 1) até a metade do reservatório, o qual atuará como filtro de limpeza;

5. Interligar as caixas d´água na área determinada;

6. Instalar uma bomba de recalque (tipo “sapo”) e uma torneira em uma das caixas d´ água. Está pronto o sistema de captação.

Matéria publicada na Edição 165 - fev/12 da Revista Direcional Condomínios.