Homenagem da Direcional Condomínios às síndicas de São Paulo (Capital)

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A maneira como as mulheres síndicas agem – com desprendimento, persistência, paciência e atenção aos detalhes – contribui para dar outro perfil aos condomínios e abre caminho para a conciliação e o apaziguamento dos conflitos.

“Feeling, sensibilidade para ouvir e vocação natural para a conciliação, a negociação e a administração. Presença constante no condomínio, delega responsabilidades, mas mantém sob monitoramento cerrado aquele que executa as tarefas e obras, pois ela enxerga os mínimos detalhes e cobra qualidade em tudo. Nunca vai ao confronto, evita dizer ‘não’, sempre busca alternativa às situações divergentes ou de conflito. Comunicativa e fortemente imbuída do senso de família, promove um bom relacionamento entre os condôminos.”

“Ser síndico é um vírus”, define Lurdes de Fátima Affonso Antônio, à frente do Condomínio Edifício Vila de Vitória, na Vila Mariana, há quase 22 anos. Mas ser mulher e síndica agrega todas as características acima ao exercício da função, conforme as impressões recolhidas durante o 3º Encontro em Homenagem às Mulheres Síndicas, promovido pela Revista Direcional Condomínios, no espaço de eventos da Livraria Nove Sete, localizada na Vila Mariana, zona Sul de São Paulo. O evento ocorreu no último dia 16 de fevereiro, em um alongado café de confraternização entre as síndicas e profissionais que atuam na área, sob o patrocínio (pelo 2º ano seguido) da Elevadores Primac. A ideia foi antecipar as comemorações pelo Dia Internacional da Mulher (efeméride de 8 de março). E aproveitar a ocasião para a troca de informações de uma maneira mais descontraída. Neste café de 2012, estiveram presentes 17 síndicas, além de cinco profissionais, que fizeram várias rodadas de conversas no período entre 8hs e 12hs da manhã.

Mas os assuntos discutidos foram muito sérios, como o tema da palestra que guiou o encontro deste ano: “A mulher síndica e seu papel na solução de conflitos”. Quem abordou a questão foi a psicóloga Jussara Rodrigues Sartini, pós-graduada na área e em Métodos Alternativos de Soluções de Conflitos Humanos pela Escola Paulista da Magistratura. Jussara é também conciliadora voluntária nomeada pelo Tribunal de Justiça de São Paulo desde 2004, tanto nas Varas de Família como nas Varas Cíveis.

A palestra ocorreu após um breve café de recepção, entre 8hs e 9hs. Foi procedida pelo coffee-break, momento em que as síndicas aproveitaram para repercutir entre si o tema da conciliação. Depois, em uma rodada de apresentação coletiva, falaram dos aspectos que mais demandam sua intervenção no dia a dia dos condomínios. Neste momento ouviram, com bastante atenção, a profissional da área de vendas da Primac, Olga Antunes, uma das poucas profissionais mulheres que atuam com elevadores. Olga abordou as relações entre os condomínios e as prestadoras de serviço, destacou a necessidade de a síndica estar atenta à legislação (especialmente o RIA, Relatório de Inspeção Anual, obrigatório no município de São Paulo), bem como ao cronograma de manutenção e às condições de segurança não apenas para os condôminos quanto para os técnicos que realizam os serviços nos equipamentos.

Mediação e conciliação: Como funciona

O tema da solução de conflitos chamou atenção das síndicas. Conforme comentário feito por Lurdes, “hoje a gente está passando por uma fase muito difícil, as pessoas estão muito egocêntricas, somente veem os direitos”, o que gera um caldo potencialmente conflitivo. Ninguém quer ver deveres ou assumir responsabilidades. Nesse contexto, segundo ponderou a palestrante Jussara, a mediação ajuda porque prevê a atuação de uma “pessoa neutra, sem envolvimento afetivo”. É um procedimento extraprocessual, esclareceu a psicóloga, lembrando que as próprias partes buscam um caminho, uma alternativa. “O conciliador irá apenas mediar, pois às vezes ele enxerga caminhos que as pessoas envolvidas não conseguem perceber.”

Segundo Jussara, os interessados em recorrer à mediação devem se dirigir aos postos extras ou demais serviços de solução de conflitos (Ver abaixo, no Leia Mais), fazer a queixa, e levar o nome completo e endereço da parte reclamada. Esta será convocada via carta-convite para comparecer a uma audiência de conciliação em data previamente definida. A pessoa citada não tem obrigação de comparecer, observa Jussara, mas caso compareça e haja um acordo, o documento é homologado pelo juiz, passando a ter valor legal para efeitos de execução, caso seus termos não sejam posteriormente cumpridos. “Nesse caso, orientamos então a parte ‘queixante’ a acionar os procedimentos judiciais comuns”, disse.

Mas a tendência é a mediação crescer, não apenas no Brasil, como no mundo todo, comentou a psicóloga. Jussara recomendou às síndicas buscarem a conciliação antes de qualquer demanda judicial, “porque é mais econômico e barato”. Seria um bom espaço para a negociação com os inadimplentes, sugeriu. Outra situação interessante para a mediação diz respeito ao barulho, exemplificou Jussara. Ela relatou o caso mediado em um condomínio em que o morador de uma unidade reclamava do ruído excessivo provocado por três crianças residentes no andar de cima. A mediadora sugeriu à mãe dos menores que ficasse um tempo no apartamento de baixo, “para sentir o problema”. “E de fato ela percebeu que o barulho era insuportável. Como não queria limitar a liberdade de movimento dos filhos, trocou o piso do apartamento por um revestimento com amortecimento de impacto”, relatou a conciliadora.

Jussara observou junto às síndicas que a mediação e conciliação pressupõem três movimentos: “escutar e colocar-se no lugar do outro; sensibilizar; e buscar um caminho alternativo”. Ou seja, “essa busca de alternativa é que funciona. Na conciliação você escuta e não bate de frente, a conciliação é sabedoria e a mulher tem esse feeling”, sintetizou Jussara. De outro modo, é importante observar que o conciliador não pode forçar um acordo entre as partes, tampouco algo que seja prejudicial a uma delas.

Durante sua exposição, uma síndica relatou o caso de um novo condômino que acabou de comprar apartamento no 1º andar. Em menos de um mês de moradia, ele registrou três queixas no livro de ocorrências do condomínio, contra o barulho provocado pelo salão de festa, a quadra e a piscina, pois sua unidade localiza-se justamente sobre o salão e de frente para a área de lazer. A síndica disse que já mostrou ao morador o Regulamento Interno, que permite a ocupação desses espaços até 22hs, conversou com a garotada, mas não pode impedir o uso dos equipamentos. O que o condomínio poderia fazer, segundo observou, durante a rodada de conversa, a personal trainer Sueli Ribeiro, é contribuir, de alguma maneira, para evitar o excesso de barulho em horários de maior demanda do lazer, realizando atividades monitoradas às crianças e adolescentes, dividindo-os entre todos os espaços. Pois mediar conflitos, propor soluções e conciliar é buscar alternativas que evitem o confronto. Ou ainda, segundo apontou a síndica novata Tânia Azoubel de Andrade, do Condomínio Edifício Athenas Garden, é levar a que as pessoas passem a assumir as responsabilidades que lhes cabem, acabando com a mania de transferir todo e qualquer problema para as costas dos síndicos e das síndicas.

Participantes do encontro


Em pé, na fileira de trás, da esquerda para a direita: Rosana de Moraes, Cristina Muccio Guidon, Rosali Figueiredo, Sueli Ribeiro, Tânia Azoubel, Ângela Merici, Jussara Sartini, Ana Josefa Severino, Margarete Zanetti, Olga Antunes;

Sentadas na fileira do meio, da esquerda para a direita: Evelyn Gasparetto, Wandinei Migliácio, Railda Silva, Mariza Carvalho Mello, Nelza Gava de Huerta, Maria de Fátima Brito, Lurdes de Fatima Affonso, Kelly Remonti;

Sentadas no chão, da esquerda para a direita: Rosana Candreva, Rejane Albuquerque, Sônia Inakake, Cybele Belschansky, Cleusa Camillo. Participou ainda do evento a síndica e jornalista Luiza Oliva

Fotos Rita Barreto

Matéria publicada na Edição 166 - mar/12 da Revista Direcional Condomínios.