Segurança: Ações integradas garantem sistema mais eficaz

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Além da infraestrutura física e do investimento em tecnologia, é preciso buscar procedimentos e hábitos mais cautelosos para proteger os condomínios da onda de arrastões.

Entre os principais motivos que levam uma pessoa a optar pela habitação em condomínios fechados, quer sejam verticais ou horizontais, estão o conforto, a tranquilidade e a proteção. Mas o panorama atual da criminalidade bate de frente com tais expectativas, deixando-as num estado de vulnerabilidade. O número de arrastões em condomínios verticais de São Paulo explodiu em 2012. A Secretaria da Segurança Pública registrou ao longo do primeiro semestre do ano mais arrastões do que em todo o ano de 2011. Quais seriam, então, as falhas que colocam por água abaixo a tão almejada segurança, antes vista como um dos maiores benefícios para quem mora em condomínios?

Segundo o consultor de segurança Adalberto Santos, as falhas mais comuns estão na deficiência do sistema organizacional do condomínio, no comportamento dos moradores e também no treinamento dos profissionais que atuam no local, sejam porteiros ou vigilantes. "Principalmente na conduta de usuários", ressalta. Para Wagner Pradella, síndico profissional há 14 anos, 80% dos condomínios de São Paulo estão mal administrados. "No geral, os síndicos estão mal informados, mal instruídos, e isso implica no nível de segurança do condomínio, bem como em moradores desatenciosos", argumenta.

O controle de acesso (entrada e saída) funciona como um chamariz para os criminosos. "Os funcionários acabam abrindo os portões na hora errada e para a pessoa errada", aponta José Elias de Godoy, Oficial da Polícia Militar de São Paulo, consultor e instrutor de segurança, além de autor de livros na área. Em cerca de 90% das ocorrências em condomínios os bandidos têm acesso pelas entradas principais, de acordo com José Elias, e a maior estratégia deles é a utilização de disfarces ou abordagem próxima à portaria para levar o morador para dentro. Godoy comenta que em 82% dos casos as quadrilhas invadem os prédios entre 18h e 6h, período quando todos chegam ou saem para trabalhar.

É preciso redobrar a atenção também com as empresas terceirizadas que prestam serviços. Especialistas afirmam que um dos fatores que eleva a insegurança condominial é atuar com funcionários sem treinamento, que desconheçam as normas do local. "Hoje a maioria dos condomínios trabalha com serviços terceirizados pela vantagem do custo e benefício e também pela substituição imediata de funcionários", observa Pradella, mas é preciso atenção ao perfil do profissional.

Não existe uma receita ideal para proteger os condomínios contra os crimes, cada um tem suas particularidades. Não obstante, independente do porte do local, deve-se adotar uma cultura de segurança que vise medidas rígidas e investimentos na conscientização de todos os funcionários e moradores. "Os equipamentos eletrônicos complementam e ajudam a monitorar os procedimentos adotados", acrescenta o consultor Elias Godoy.

FERRAMENTAS AUXILIARES

Há pouco tempo atrás, as câmeras do circuito de CFTV tinham a função de inibir uma ação criminosa, ou seja, exerciam um papel mais preventivo, pois se entendia que o ladrão temia ser filmado. Hoje, entretanto, esses equipamentos entraram como recurso para o próprio campo investigativo. "A tecnologia atual traz a cada dia excelentes e inúmeras contribuições nesse sentido: câmeras, circuito de CFTV, alarmes, controles de acesso através de sistema digital etc.", afirma o consultor Adalberto Santos.

A tendência daqui para frente é integrar todos os processos, aponta, por sua vez, Rodrigo Machado, responsável pelo departamento de projetos de uma empresa especializada em sistemas de segurança, instalada na Vila Maria, zona Norte de São Paulo. "Hoje o CFTV 100% digital possibilita a integração paulatina das câmeras aos sensores de presença e perímetro, às catracas, alarmes etc." Porém, "se não houver profissionais habilitados não adianta investir em tecnologia", pondera o consultor Adalberto Santos. Segundo ele, as ferramentas se tornam ineficazes se o usuário não tiver consciência e controle sobre os riscos.

Administrado pelo síndico e morador Pradella, o Condomínio George Bizet, situado no bairro da Aclimação, zona sul da cidade, com uma torre, 90 apartamentos e cerca de 300 moradores, possui um sistema de segurança que acopla CFTV, alarmes, cerca elétrica, 35 câmeras e monitoramento 24 horas, realizado por uma empresa terceirizada. Mas toda a aparelhagem não é o bastante: o síndico tem o hábito de reciclar os profissionais da linha de frente a cada três meses e também faz parte de sua rotina de trabalho buscar informações na Delegacia da Divisão de Crimes Contra o Patrimônio do Deic (Departamento de Investigações sobre Crime Organizado). "É importante o síndico se informar sobre as ocorrências e depois repassar aos porteiros os cuidados necessários", diz Pradella.

O Condomínio Living Club, que envolve quatro torres, 400 unidades e cerca de 1.200 moradores na Vila Leopoldina, zona Oeste de São Paulo, adotou um sistema de segurança por "sensibilidade". Entregue há quatro anos apenas com um sensor de barreira infravermelho, o condomínio já possui hoje oitenta câmeras e ainda estão sendo instaladas outras dezesseis. "Todas estão posicionadas de forma a acompanhar o morador e o visitante desde a portaria até o apartamento", afirma o síndico Waldir Berger. Além de ser monitorado por ronda interna diurna e noturna, o local dispõe de sistema digital para identificar pedestres e carros. "O condômino é identificado através de um sistema digital de biometria." E para maior segurança no acesso de carros, utiliza-se o sistema de "tags", "que possibilita ao funcionário fazer a triagem de cada veículo, por meio de leitura interativa de uma bateria, etiqueta ou cartão, e visualizar a fotografia do morador que está no cadastro de determinado veículo", detalha o síndico.

Entretanto, para uma segurança mais eficaz, todo esse aparato tecnológico não é autossuficiente. Berger comenta que, constantemente, organiza reuniões com a supervisão da empresa terceirizada para fazer os ajustes e, de vez em quando, costuma dar uma incerta, ou seja, arma situações para testar a eficiência dos sistemas e dos profissionais de segurança do condomínio. "Os síndicos e os zeladores são as únicas pessoas que podem saber sobre essa incerta", recomenda àqueles que pretendem executá-la.

PREVENÇÃO COM PLANEJAMENTO

Berger implantou todo o sistema de segurança do Condomínio Living Club ao longo de três anos, a cada ciclo anual concluía uma parte do projeto. Ele recomenda a um síndico que queira mudar ou implantar um sistema, que faça um planejamento do investimento. Primeiro, pontua Berger, "o síndico deve estabelecer o valor do investimento que está ao alcance do condomínio e depois fazer um estudo preciso da segurança no local: verificar tipos de equipamentos, necessidade ou não de rondas internas e ainda o perfil e a quantidade de profissionais aptos para lidar com tal sistema". Na empresa onde Rodrigo Machado atua como responsável pelo departamento de projetos, o sistema pode ser complementado de forma modular e progredido aos poucos, conforme a necessidade e as condições financeiras do cliente. Para legitimar o projeto, os especialistas indicam contratar uma empresa de consultoria para realizar o diagnóstico do condomínio. Machado aconselha solicitar um consultor que tenha olhar crítico na parte de segurança, aquele que seja capaz de identificar as áreas vulneráveis do local.

No que diz respeito à escolha da empresa, tudo o que envolve segurança é sempre recomendável fechar negócio com companhias padrão tipo "A", que trazem na bagagem boas referências de outros condomínios, de acordo com Berger. "É importante a empresa oferecer profissionais habilitados e reciclados periodicamente, bem como um serviço de 24 horas de monitoramento a distância."

Contudo, a essência para o planejamento do sistema deve ser o despertar da cultura de segurança entre os moradores do condomínio. "Sem estratégia a segurança fica dispersa, o que contribui para que os criminosos encontrem as brechas para agir", costuma indicar o consultor Santos.

COMO PROMOVER A CULTURA DA SEGURANÇA

Todos os usuários do condomínio assumem um papel importante no processo de segurança, mas, para o consultor Santos, o morador é o sujeito principal. O Oficial Elias Godoy compartilha a mesma opinião: "os condôminos são os mais interessados pela segurança e, portanto, devem estar engajados e obedecer tudo o que diz respeito à sua proteção". É fundamental que os moradores adotem hábitos precisos como: "prestar atenção ao que acontece no entorno do condomínio ao entrar e sair, tomar cuidado com correspondências, bem como não comentar sobre a vida pessoal com os empregados do apartamento e profissionais do condomínio", detalha o síndico Pradella.

Para ajustar o comportamento dos usuários, a comunicação deve ser abundante: emitir circulares com conteúdos que sirvam de alerta para garantir a proteção de todos e também produzir uma cartilha com normas que tratem de um bom e rígido controle de acesso. Além de abordar questões de ordem comportamental nas dependências do condomínio, o consultor Santos complementa que é importante a cartilha expor informações que transcendam os muros e orientem moradores e funcionários quanto às suas condutas também fora do local.

NORMAS DO CONDOMÍNIO: COMO FAZER

"Não existe qualquer legislação específica para condomínio no tocante à segurança, ou seja, algo que o obrigue a fazer ou deixar de fazer", ratifica Cristiano De Souza Oliveira, advogado e consultor jurídico. Cada condomínio possui suas particularidades que devem ser respeitadas, por isso, argumenta, "as regras de segurança são sempre de bom senso e devem ir ao encontro do comportamento da coletividade". Para o síndico se prevenir de acusações de omissão em relação à segurança, o advogado aconselha sempre levar todas as normas e sugestões à assembleia para a aprovação e ainda registrar o que foi decidido, visto que, conforme a Lei 4.591/64, ele pode ser responsabilizado civil e criminalmente pelos acontecimentos.

ACESSO COM MANDADO JUDICIAL

Não é permitida a entrada de policiais em condomínios sem mandado judicial, segundo Adalberto Santos, consultor de segurança. "Salvo socorros emergenciais, como situações de flagrante delito", completa o Oficial Godoy. Caso haja o mandado, ou mesmo em circunstâncias de emergência, o consultor afirma que é prudente e de direto solicitar a identificação funcional dos executores e, na medida do possível, acompanhá-los durante a permanência no local. Antes de liberar o acesso, para maior proteção, os especialistas também aconselham ligar para a polícia e confirmar a ordem e ainda avisar a central externa de monitoramento.

Matéria publicada na Edição 172 - set/12 da Revista Direcional Condomínios.