Playground: Normas mudam para dar mais segurança às brincadeiras

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Os condomínios residenciais devem ficar atentos às novas especificações sugeridas pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT).

Uma comissão formada pela ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas), a Abrinq (Associação Brasileira dos Fabricantes de Brinquedos), entidades oficiais, laboratórios de testes, fabricantes e fornecedores trabalhou nos últimos dois anos para a revisão das normas de segurança dos brinquedos de playgrounds. E no final de julho passado, os novos parâmetros foram publicados e se tornaram oficiais, através da NBR 16.071, que revogou a norma anterior, de nº 14.350. O objetivo é auxiliar fabricantes e usuários a compreenderem melhor os requisitos mínimos de segurança nos playgrounds, entre outros.

Segundo o arqui teto Fábio Namiki, coordenador do Comitê de Segurança de Playgrounds da ABNT, a comissão procurou reorganizar a apresentação e facilitar o entendimento das diretrizes, entre elas, os requisitos de segurança para a fabricação do brinquedo; os ensaios necessários em laboratório; os pisos amortecedores de impacto; as normas de implantação do playground; os procedimentos para os instaladores; e, finalmente, normas de uso e de manutenção dos brinquedos. Namiki ressalta que a nova norma traz ainda, de maneira mais clara e objetiva, a recomendação para que os responsáveis pelos playgrounds tenham um livro permanente de registro de ocorrências, façam inspeções mensais e providenciem laudos técnicos anuais por um especialista. Manutenção e Segurança O arquiteto lembra que a norma não é obrigatória, mas adverte que as orientações devem ser cumpridas rigorosamente. "É recomendada uma vistoria diária pelo agente da comunidade, o zelador ou mesmo uma mãe. É uma inspeção que visa identificar pequenas avarias ou irregularidades que qualquer pessoa pode prever. A cada seis meses deve haver uma vistoria técnica, observando as estruturas, entre outros pontos. Anualmente deve-se realizar uma vistoria com responsabilidade técnica, verificando-se todos os requisitos de segurança listados na norma", destaca o arquiteto.

Tânia Azoubel, síndica em 2º mandato consecutivo do Edifício Athenas Garden, localizado na zona Sul de São Paulo, fala com orgulho sobre os cuidados que dispensa à manutenção do playground do condomínio residencial em que mora: "Eles são diários. É feita a limpeza geral dos brinquedos, bancos, grama e pedras já existentes. Infelizmente não tínhamos um playground e sim um espaço livre que durante anos ficou sem a função deste lazer. Hoje é muito gratificante ver as crianças brincarem e receber o reconhecimento por parte dos pais".

Para Ângela Merici Grzybowski, síndica do Condomínio Residencial Maresias desde 2006, é importante estar sempre atenta à condição dos brinquedos e à limpeza do playground. "A manutenção básica é a limpeza e o eventual conserto de algo. Nossa vistoria é quase que diária para verificar o estado geral dos brinquedos e de toda a área do playground. Ao longo desses quase cinco anos, o 'brinquedão' precisou passar por alguns consertos e agora já estamos pensando em sua substituição, pois a madeira começa a dar sinais do final de sua vida útil", diz a síndica, do condomínio localizado em Perdizes, zona Oeste de São Paulo.

Mas além da manutenção e vistoria constantes, Ângela destaca alguns aspectos de projeto e construção que devem ser levados em conta (Confira a orientação da nova norma da ABNT ao final desta reportagem). "O piso nivelado, grelhas de esgoto protegidas e piso de grama sintética colada protegem as crianças de eventuais quedas. Os brinquedos precisam ser vistoriados para consertar eventuais farpas ou pregos expostos (no caso de brinquedos de madeira) e pontas (nos brinquedos de plástico) que possam arranhar ou machucar a molecada. A área destinada ao playground deve ter ainda uma tela de proteção para eventual queda de objetos das janelas dos apartamentos".

O arquiteto Fábio Namiki recomenda atenção ainda ao piso escolhido, lembrando que ele deve oferecer maior segurança e permitir o amortecimento de quedas e impacto. "O piso deve proporcionar o amortecimento de uma queda de até três metros de altura, sem que haja fratura craniana. Conferir essa especificidade só é possível em laboratório (conforme determina a revisão da NBR), ou com o deslocamento de equipamento especializado até o local. Materiais soltos como a areia e os pedriscos atendem a esse requisito, desde que respeitada a camada mínima de 30 cm. Pisos de borracha precisam necessariamente passar por testes, sendo que muitos dos existentes no mercado ainda não têm nenhum tipo de certificação", observa Namiki.

SEGURANÇA: ADULTOS SEMPRE POR PERTO

Outro aspecto importante diz respeito ao acompanhamento constante de um adulto ou de uma pessoa responsável. Pensando neste cuidado, a síndica Tânia Azoubel encontrou uma boa alternativa. "Junto com os brinquedos, colocamos uma área onde os pais podem ler um jornal, uma revista, ou mesmo fazer algumas anotações enquanto as crianças brincam. Eles ficam bem à vontade, ainda mais agora que colocamos uma mesa de apoio com guarda-sol. Também é muito importante que os acompanhantes observem os limites de cada brinquedo. Tentamos escolher brinquedos que ofereçam o mínimo de perigo. Quando é possível ver alguma irregularidade, como o deslocamento de um equipamento do lugar, podendo tirar a sua estabilidade, alertamos e conversamos com os moradores, o que tem dado resultados positivos", relata. A psicóloga e psicopedagoga Sirlândia Reis de Oliveira Teixeira, conselheira da Associação de Brinquedotecas (ABBrin) e membro da International Toy Library Association (ITLA), esclarece que, na verdade, o fato de ser criança já indica que deve estar sempre acompanhada pelos pais ou responsáveis. "Por mais que o playground seja seguro, o risco de acidentes é inevitável, principalmente quando estão subindo ou descendo no escorregador, ou balançando nos brinquedos. Porém, os pais podem manter certa distância a medida que percebem que os filhos estão seguros. Um dado importante que muitas vezes os pais podem esquecer é a vestimenta da criança. Por isso, vale lembrar que os pais precisam 'checar' os filhos antes de sair de casa. Por exemplo: cordão pendurado, capuz ou outros acessórios podem enroscar ou atrapalhar na hora das brincadeiras", lembra a psicóloga.

QUAL É O MATERIAL MAIS INDICADO PARA OS BRINQUEDOS?

"O tipo de material realmente depende da faixa etária. Para os pequenos o mais recomendado é a utilização de brinquedos de plástico rotomoldado. Embora a vida útil do material seja menor, os riscos de causar acidentes graves diminuem bastante. Já para os maiores de sete anos, o brinquedo de madeira atende com mais tranquilidade e segurança. Mas vale lembrar que o tipo de material também depende do tamanho do playground. No caso dos brinquedos de plástico, é recomendável que fiquem num local coberto, mas com ampla área externa sem cobertura. Isso porque eles absorvem muito o calor, impedindo os pequenos de brincar nos dias muito quentes." Sirlândia destaca que é importante visualizar o ambiente do playground como um todo, separando os brinquedos por faixa etária e sinalizando qual a idade das crianças que podem utilizá-los.

Sirlândia comenta que, embora as normas da ABNT sejam muito claras quanto às medidas dos brinquedos, muitos condomínios compram os equipamentos sem a supervisão de um especialista. "Vale lembrar uma regra básica: quanto menor a criança, menor o brinquedo. Isto é, se o brinquedo é para uma criança de três anos, por exemplo, essa criança deve ter acesso a ele facilmente, pois o risco de se machucar com gravidade é menor em casos de queda." O arquiteto Namiki reforça: "Cada tipo de material vai responder melhor a um ambiente, uma demanda. Se pensarmos na possibilidade dos brinquedos sofrerem vandalismos, a madeira e o aço são mais robustos. Cada faixa etária tem uma série de requisitos de segurança que devem estar incorporadas ao projeto do brinquedo e da área do playground, independentemente do material utilizado."

O MAIS IMPORTANTE É BRINCAR!

Além das questões técnicas e de segurança, o objetivo principal dos playgrounds dos condomínios residenciais é oferecer um ambiente saudável, descontraído e que contribua para o desenvolvimento das habilidades cognitivas, afetivas e sociais das crianças. "É fundamental que o playground seja atrativo para as crianças. Assim, as cores, o formato, a área livre e o que há em volta precisam encantar os pequenos. O quanto as crianças vão se interessar pelo playground vai depender do quanto o brinquedo é desafiador para determinada faixa etária. Porém, é nítida a preferência pelo escorregador, o balanço, a gangorra, o gira-gira e o tanque de areia, até porque são os mais comuns nestes espaços", comenta a especialista Sirlândia Reis.

Por fim, a psicopedagoga completa: "E nos condomínios onde também há uma brinquedoteca, é recomendável que haja um profissional responsável, que é o 'brinquedista', com formação reconhecida pela Associação Brasileira de Brinquedotecas."

A NOVA NORMA TÉCNICA

• Devem-se considerar vários aspectos de um projeto a fim de prevenir a corrosão de partes componentes do equipamento;

• As roscas de parafusos salientes acessíveis devem ter acabamento de proteção, para que não permaneçam cantos afiados. Porcas, pinos e parafusos devem ser resguardados contra afrouxamento com o uso. Os componentes não devem ter quaisquer cantos afiados ou agudos, ou protuberâncias em qualquer posição que representem perigo para uma criança;

• As superfícies de todas as partes devem ser protegidas por revestimento ou impregnação superficial, os quais não devem conter substâncias prejudiciais à saúde. Antes da pintura, o ferro e o aço devem estar completamente limpos, secos e livres de resíduos que possam comprometer a durabilidade da pintura, entre outros;

• As partes de madeira dos playgrounds não devem ser tratadas com 'preservantes' tóxicos, como o pentaclorofenol ou seus sais;

• As superfícies e cantos acessíveis de madeira devem ter acabamento liso, livre de lascas, rebarbas ou farpas. Deve-se verificar se os mesmos não possuem bordas afiadas e pontas agudas;

• Todas as superfícies destinadas a entrar em contato com os pés devem ser horizontais e uniformes. Pisos ou degraus devem ser espaçados por igual;

• Por ocasião do fornecimento de um equipamento de playground, convém que seja elaborado um contrato obrigando o contratante à inspeção, a ser efetuada por organismo competente. A garantia legal, conforme o Código de Defesa do Consumidor, é de 90 dias, podendo ser completada pela garantia contratual, cujos itens convém que sejam especificados por cada fabricante / fornecedor no contrato. Este deve possuir também uma lista de verificação mínima, considerando-se os padrões de segurança, podendo constar de um manual de operações;

• No mesmo contrato, convém que sejam expostas as obrigações do fabricante / fornecedor e contratante, junto com as plantas elétricas, hidráulicas e estruturas que venham influenciar a instalação do equipamento de playground. Os atos de vandalismo que invalidem a garantia devem ser comprovados pela inspeção registrada e certificada;

• Quando o equipamento acaba de ser colocado em funcionamento, convém que sejam inspecionadas, diariamente, falhas características do "período de amaciamento". A duração do período de amaciamento dependerá das condições locais.

Matéria publicada na Edição 172 - set/12 da Revista Direcional Condomínios.