Síndico, Conte sua História! Com Orlando José

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‘Sou filho de zelador com costureira e venci na vida como síndico’

Orlando José, 56 anos, atua com esposa e filhos na sindicatura 

Síndico Orlando José

“Quase tudo que sei da engrenagem, do comportamento dos condomínios, eu devo ao meu pai. Sou filho de um dedicado zelador com uma costureira e venci na vida como síndico profissional. A minha mãe não tinha estudo, mas enxergava longe. Dizia que ‘porta de condomínio era melhor que de fábrica’, isto porque condomínio não corria risco de falir e deixar os funcionários na mão. Ela que direcionou meu pai por esse caminho.

Na minha infância, ele era porteiro de um residencial de alto padrão na Avenida Paulista. Minha mãe ainda não tinha conquistado sua própria oficina, então pegava costuras avulsas e, às vezes, limpava fossas para completar o dinheiro do aluguel. Morávamos no porão de uma casa na Vila Mazzei, zona norte, até que meu pai foi promovido a zelador. Nos mudamos para uma espaçosa casa no térreo do prédio da Paulista, onde viviam famílias ricas, como a dos pais do Amyr Klink, hoje um navegador famoso. Meus pais, minha irmã caçula e eu éramos bem-quistos. Havia algumas famílias judaicas e minha curiosidade de criança nos aproximou, criando em mim uma admiração perene e genuína por suas tradições.

Cinco anos mais tarde, meu pai foi trabalhar no Campo Belo, zona sul, em um condomínio com infraestrutura de lazer como piscina, parquinho e quadra esportiva. Bom, os filhos dos moradores queriam interagir com os do zelador, só que alguns condôminos eram contra nossa presença nos espaços de recreação. O síndico, um senhor bacana, colocou a questão em votação, ficando decidido que minha irmã e eu teríamos trânsito livre. Porém, quando chegávamos à piscina, percebíamos a debandada dos adultos. Éramos crianças bem-criadas, limpas e educadas, mas agiam como se fôssemos arruaceiras e com doença contagiosa. Aquilo doía muito.

Eu não cresci traumatizado porque minha família me fez entender que o importante não é o que temos, mas aquilo que somos. Compreendi ainda que no microcosmo social dos condomínios existem figuras difíceis, espinhosas, mas também há pessoas do bem. Algumas dessas nos levavam com seus filhos para um fim de semana na chácara ou casa de praia, e conseguiram até bolsas de estudo para nós.

Comecei a trabalhar aos 13 anos como auxiliar de portaria nesse mesmo condomínio, logo após uma greve de funcionários dali por melhores salários. O meu pai supriu a ausência do porteiro na guarita e eu dei retaguarda. Os condôminos elogiaram meu desempenho e o síndico me contratou. No ano seguinte, um morador me levou para trabalhar de office-boy em uma seguradora.

Já maior de idade, aprendi o ofício de operador de som trabalhando com um tio numa rádio universitária em Guarulhos, e a partir daí passei por grandes emissoras, como a Rádio Globo. Convivi com Osmar Santos, Gilberto Barros e Eli Corrêa, e a naturalidade deles ao microfone me inspira até hoje para conduzir assembleias. Após dez anos de rádio, casado, prestes a ser pai e morando de aluguel, tentei o setor imobiliário, mas não deu certo.

Em 1997, consegui um emprego de zelador em um condomínio com 10 torres, na zona sul, próximo ao Simba Safári. Precisei pegar firme com a equipe terceirizada, mas o supervisor não gostou e sutilmente me mostrou uma arma sob o paletó. Aprendi que, seja qual for a sua função em um condomínio, se a sua vida ou a de sua família for ameaçada, é hora de deixá-lo. Algo no meu coração me dizia que a chave do meu destino estava em Higienópolis, e conduzi meu percurso para lá.

Nesse bairro nobre da região central, fui zelador em três condomínios de alto padrão, sendo que no terceiro deles eu ingressei na etapa da implantação e trabalhei para que a instalação das famílias transcorresse com celeridade e conforto. Esse cuidado não passou despercebido pelos moradores, 90% da colônia judaica, que nos abraçaram. Custearam minha graduação em Administração de Empresas no Mackenzie; o Colégio Sion para meus dois filhos mais velhos e, quando a caçula nasceu, a presentearam com dinheiro e enxoval completo. Fui muito abençoado!

Nesse elegante edifício com 25 andares, sendo um apartamento por andar, a cada ano um morador assumia como síndico. Fiquei lá por sete anos, convivi com sete síndicos, mas todos diziam que no fundo o síndico era eu, que eles só cumpriam o protocolo. Sem querer ser pretensioso, sempre tive habilidade para contratar serviços, negociar com fornecedores e fazer o gerenciamento de funcionários. Mesmo tendo carta branca, eu alinhava as decisões com o síndico porque precisava da assinatura dele. Aos poucos, construtores e incorporadores que residiam ali começaram a me dar condomínios para fazer a implantação. Eu aceitava e era bem remunerado, mas como nunca ouvira falar em síndico profissional, pensava que estava apenas quebrando um galho para eles. Até que após um semestre nessas atividades paralelas, me vi recebendo dez vezes a mais do que ganhava como zelador.

Há 12 anos abracei a sindicatura e saí da zeladoria do prédio, tendo a palavra de que os empresários da construção continuariam a me dar condomínios. Eles cumpriram e ainda me apresentaram à administradora BBZ, que investiu muito em mim. Nos anos seguintes, me aproximei também de diferentes administradoras, construtoras e perfis condominiais. Comprei um apartamento em Guarulhos, perto dos meus pais (ele tem doença de Alzheimer) e montei a sede da minha empresa de sindicatura, que hoje atende 23 condomínios, o que é compatível à estrutura que eu tenho. Eu cheguei a ter 60 condomínios, mas não valeu a pena porque adoeci. Tive burnout e paralisei. Sorte que tenho uma equipe incrível, formada pela minha esposa Lucy, meus filhos Fernando e Luana, e agregados, que não deixaram os clientes à deriva.

Na fase aguda do burnout, perdi a alegria de ser síndico, mas a paixão voltou quando aceitei lecionar em curso de sindicatura no Senac porque a energia dos alunos era contagiante. Condomínios são rosas: há vida, beleza e frescor. Mas têm espinhos (os encrenqueiros) e cabe ao síndico fazer a poda certa (com as ferramentas legais). Depois que melhorei, passei a ir ainda mais aos condomínios, e a dar plantões, divulgando pelo WhatsApp dias e horários para os moradores que quisessem me procurar. É muito importante manter contato com os condôminos. Tem morador que não vai em assembleia, nem sabe quem é o síndico. O meu conselho é que o síndico pegue um domingo ou feriado e vá cumprimentar o morador que está na área de lazer, que alugou a churrasqueira, pergunte se está tudo bem, se mostre presente. Condomínio não pode ter síndico Gasparzinho, pois ainda que a prestação de contas esteja em ordem, não se lembrarão dele na reeleição.”

Orlando José, em depoimento a Isabel Ribeiro.


Matéria publicada na edição 297 fev/24 da Revista Direcional Condomínios

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