A trajetória de Elisabeth Machado Gomes - Síndico, Conte Sua História!

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“Ser síndica profissional fez de mim uma mulher realizada”

Elisabeth Machado Gomes, de 54 anos, tem 30 condomínios em sua carteira.

Síndica profissional Elisabeth Machado Gomes

“Ingressei no mundo condominial cerca de 25 anos atrás, como síndica orgânica em uma das torres de um condomínio do Morumbi, e fiquei uma década no cargo. Descobrir que eu trazia isso na veia e o fato de ter um forte lado organizacional me fizeram acreditar que poderia cuidar da gestão de outros condomínios, então me tornei também síndica profissional. Naquela época, eu investia no mercado imobiliário e tinha amigos investidores, o que facilitou minha aproximação de alguns empreendimentos dos quais me tornaria síndica. Porém, de nada adiantaria caso eu não estivesse apta a cumprir mandatos com qualidade e honestidade.

Hoje, tenho orgulho em ser síndica do prédio em que mora o próprio dono da construtora, por exemplo, mas nada disso veio de graça, nem de um dia para outro. Consolidar o nome exige muito trabalho duro. Quem é síndico sabe das demandas, desafios e responsabilidades da categoria. Eu me adaptei porque não gosto de rotina, sempre tenho coisas novas para fazer e aprender. Hoje, está em alta o acesso por biometria facial, amanhã será pela íris, então é prestar atenção às novidades, especialmente na gestão de prédio comercial porque esse não pode ficar parado no tempo, senão não tem 100% de ocupação. Estar em movimento me motiva e ajuda a lidar com situações machistas.

Sou formada em Administração de Empresas e trabalhei em ambientes administrativos na Volkswagen, Mercedes-Benz e BMW. Na VW, tive de assinar um termo que proibia o uso de esmalte vermelho; também não podia trajar jeans justos ao passar pela linha de produção. Nesses lugares, sempre precisei provar que era tão competente quanto os homens. Na minha história como síndica, continuei sendo testada várias vezes. Sai da BMW porque desejava um trabalho que me permitisse mais tempo com meus dois filhos pequenos. O meu esposo era advogado de uma das torres do condomínio em que morávamos e isso me despertou a atenção por esse universo. Passei por todos os estágios, da comissão à sindicância, sempre aprendendo com pessoas do conselho, como engenheiros, contadores e advogados. Mesmo tendo adquirido certo conhecimento, minha capacidade era questionada por prestadores de serviço por ser mulher.

Em meados dos anos 2000, foi erguido um condomínio clube no Paraíso, com duas torres de 250 unidades cada e um prédio comercial. Fui investidora, moradora e síndica por oito anos. Com pouco tempo de uso, o mecanismo dos elevadores apresentou defeito. Dois técnicos da empresa fabricante vieram para me explicar o porquê do problema nos cabos e rolamentos. Iniciaram dizendo que iriam resumir a situação para que eu entendesse melhor e soltaram: ‘a senhora sabe como funciona uma máquina de lavar roupa que a gente abre por cima e a que tem abertura frontal?’. Eu encerrei a conversa ali.

Em casa, chorei muito por causa da didática pejorativa. Por que não perguntaram se eu sabia como funcionava o motor de um carro? Até quando mulheres só serviriam para conhecimentos domésticos? Mas esses acontecimentos serviram para me empoderar como mulher e melhorar como síndica. No dia seguinte, contratei um perito que pudesse dar um laudo sobre o problema e me explicar a razão de elevadores novos estarem comprometidos. Ao mesmo tempo, a diretoria da fabricante me procurou, se desculpou pelo machismo dos funcionários, acatou o laudo técnico e resolveu o problema. Construímos uma relação de respeito que dura até hoje, sem que eu me calasse ou colocasse condôminos em risco.

Nesse condomínio, representantes de empresas já chegavam me desqualificando. Antes mesmo de eu abrir a boca, antecipavam: ‘sei que a senhora não entende, mas eu vou explicar de outra maneira o que aconteceu com o portão; a bomba; a caldeira’. Quando eu esclarecia que entendia, se desculpavam alegando que era incomum encontrar síndicas. Já a empresa de segurança falava: ‘melhor a senhora não se envolver nisso, deixa que a gente cuida!’. E lá ia eu bater na tecla da igualdade de gêneros. Sequer imaginavam que, anos depois, eu ajudaria a prender dois membros de uma quadrilha que invadia apartamentos de comerciantes orientais na Aclimação. Eu desconfiei da presença de dois homens que avistei pela câmera de segurança. Orientei que não os deixassem sair do prédio, mantendo-os na eclusa e chamei a polícia. Agradecida, uma condômina postou nas minhas redes sociais uma figura da Mulher-Maravilha aludindo ao fato e achei muito carinhoso.

Ser síndica é assim. A gente precisa ser firme, ter pulso, saber dizer não, aliás muito mais não do que sim, mas há momentos de afago, de receber e dar carinho, de tomar um café com o condômino ou acompanhá-lo em uma emergência hospitalar. É preciso empatia e entrega para situações que nos pegam de surpresa. Uma vez acordei com um telefonema no meio da madrugada. Um morador havia pulado do 22º andar e os funcionários do prédio estavam muito assustados, sem coragem de saber de quem se tratava. Fui para esse condomínio já imaginando tratar-se de um senhor que andava bastante recluso e mal trocava de roupa. Era ele, vivia só, então tive de acompanhar a polícia ao apartamento. Tratei ainda de resguardar o condomínio da mídia. Até o corpo ser retirado, foram nove horas extremamente difíceis para mim.

Outra situação complicada envolve assédio sexual. Certa vez, um condômino trancou a porta de uma sala e me agarrou; o agredi para escapar. Noutra, mais recente, foi uma condômina que tentou o mesmo. A gente não pode acuar, senão a pessoa vai tentar de novo. Pedi à administradora para enviar uma advertência de conduta porque eu sofri constrangimento. Não podemos deixar em branco, assim como não podemos aceitar outras agressões caladas. Teve uma moradora que me atacou no elevador com o interfone. Processei; foi penalizada com prestação de serviço comunitário.

Também já entrei com ação contra quem insinuou desvio de dinheiro da minha parte, o que foi mais comum à época da Operação Lava-Jato, do ex-juiz Sérgio Moro, período em que as pessoas ficaram com os ânimos mais insuflados, querendo me desacreditar, fazendo paralelos com a política. Dei um basta. Sempre fiz questão de ter todas as minhas gestões auditadas, então sou muito segura sobre a questão de finanças para processar quem me acusar de desonestidade. E acho que, se acontecer algo nessa linha, os síndicos não precisam ficar quietos, podem recorrer ao departamento jurídico da administradora ou ao Juizado de Pequenas Causas.

Mesmo com tudo isso, ser síndica profissional fez de mim uma mulher realizada e empoderada. Hoje tenho a minha empresa, emprego gestores prediais e gero bastante trabalho para especialistas parceiros, o que me gratifica tanto. Tenho o meu esposo comigo, na área jurídica do escritório, e consigo ter momentos de lazer porque reuni uma boa equipe. Quando sou obrigada a negar algo nos condomínios, dizem que sou mal amada. Na verdade, a minha família é o meu eixo. O amor do meu esposo e dos meus filhos e netinhos é fundamental para eu ser quem eu sou.

Elisabeth Machado Gomes, em depoimento concedido a Isabel Ribeiro.


Matéria publicada na edição - 280 - jul/2022 da Revista Direcional Condomínios

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