Sou síndico pós-pandemia. E agora?

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Vida de síndico nunca foi fácil. Desde o início da pandemia pelo coronavírus, os desafios enfrentados são imensos e ainda não terminaram. Certamente atitudes tomadas no auge da Covid-19 ainda devem perdurar e lições importantes permanecem. A vida em condomínio foi transformada para sempre!

Síndicos enfrentando os problemas pós-pandemia

O que parecia ser um enredo de filme hollywoodiano se tornou realidade no planeta em 2020: a população se viu refém de um vírus mortal, ainda sem vacinas ou remédios eficazes para combater os graves efeitos da doença. Chegamos a 2022 com uma enorme esperança de que o perigo havia sido eliminado e com uma boa parte dos brasileiros já imunizados - mas uma nova variante da Covid-19 aumentou muito o número de infectados, colocando novamente vidas em risco e lotando o sistema de saúde.

Reflexo da sociedade, os condomínios hoje vivem, sem dúvida, momentos mais tranquilos do que 2020 e 2021. Mas os cuidados e desafios continuam. Síndicos destacam especialmente a dificuldade de convivência entre vizinhos como um dos maiores problemas enfrentados. “Estamos vivendo muitas mudanças comportamentais e as pessoas estão com os nervos à flor da pele, brigando por tudo. Acho que estamos vivendo uma pandemia emocional. Por exemplo, quem está em home office não aceita a execução de uma obra no vizinho, mesmo que seja necessária”, aponta Paulo Mujano, síndico profissional de 14 condomínios, sendo dois comerciais.

A saída, para Mujano, é muita paciência e conversa, fazendo com que cada um olhe o ponto de vista do outro, “e não só para o próprio umbigo”. Ele notou também, nos condomínios em que ocupa a sindicância, um número maior de pets, já que muita gente estava em busca de companhia durante o isolamento. “Hoje algumas pessoas estão voltando a trabalhar fora e os pets estão ficando sozinhos, gerando latidos e mais conflitos”, diz, sem deixar de citar pelo menos um legado positivo dos tempos de pandemia: a adesão às assembleias virtuais. “Pelo menos 10 dos meus condomínios não pretendem voltar aos encontros presenciais. E 95% das reuniões de conselho são virtuais e muito eficientes.”

Paulo Roberto Paleari é síndico orgânico do Edifício San Marino, na Saúde, com 64 apartamentos. Gerir a comunidade condominial com cerca de 180 moradores em época de pandemia trouxe muitos aprendizados, acredita: “Notei que alguns moradores passaram a reclamar de coisas que anteriormente não os incomodavam, sem olhar o lado do outro. Fiquei mais esperto para lidar com as pessoas, já que muitos chegam para conversar já com pedras na mão.”

Ele lembra que no início da pandemia, para evitar a entrada de prestadores de serviço no condomínio, autorizou que o próprio zelador realizasse pequenos reparos necessários nas unidades. Paleari relata que chegou a ouvir de moradores que cada um deveria resolver os problemas de seu apartamento. “Meu objetivo foi preservar a saúde da coletividade. Também autorizei obras conforme o regulamento do edifício, das 9h às 17h, enquanto muita gente propunha reduzir o horário para das 11h às 15h. Mas acredito que assim as obras nos apartamentos ocorreram mais rápido, sem se arrastarem por muito tempo.”

Paulo Romani, síndico há 24 anos do condomínio Saint Paul Ville na Bela Vista, com duas torres e 136 unidades, explica que todas as medidas tomadas durante a pandemia, especialmente sobre o uso das áreas comuns, foram aprovadas em assembleia. Romani, que também é diretor de uma administradora com 250 condomínios em carteira, avalia que essa foi a melhor conduta. “Orientamos nossos síndicos a documentar as decisões tomadas, evitando problemas futuros tanto para o síndico como para o próprio condomínio. Alguns fizeram assembleia e outros preferiram comunicar através de circulares”, diz.

Já o síndico Azis José Elias Filho teve muito receio, no início da pandemia, que a inadimplência atingisse o condomínio Itaguaba no Morumbi, com 16 unidades. “Por circular, avisei os condôminos que compreendia os problemas financeiros que poderiam existir mas que se o condomínio não tivesse caixa eu deixaria de pagar fornecedores. Houve uma reação muito positiva e não enfrentamos nenhum problema nesse sentido.”

Síndicos enfrentando os problemas pós-pandemia

Conhecimento e comunicação

Relatos como os dos síndicos citados nesta reportagem representam o cotidiano de outros gestores em tempos de pandemia. Certamente atitudes tomadas no auge da Covid-19 ainda devem perdurar e lições importantes permanecem. Na opinião de Moira Toledo, vice-presidente de Administração Imobiliária e Condomínios do Secovi-SP, os condomínios ganharam outra dimensão. “As pessoas ficaram muito mais tempo em casa. A residência não era só o lugar para descansar, mas para trabalhar, se exercitar, estudar. Antes da pandemia muita gente entrava e saía do prédio e nem percebia toda aquela estrutura funcionando. Quando surge a nova dimensão do morar, esse local toma uma proporção muito maior nas nossas vidas. Mais do que nunca o condomínio precisava funcionar!”

Moira frisa a dedicação dos funcionários, o tempo todo na linha de frente, e dos síndicos, “que precisavam tomar decisões rápidas, como abrir ou fechar a academia”. Ao lado da valorização da estrutura dos condomínios, a profissional percebe como legado da pandemia o conhecimento gerado para enfrentar uma situação de crise. “Nunca havíamos passado uma crise sanitária como a da Covid-19. Entendemos a importância de ouvir as instituições, como o Secovi-SP e a AABIC, que podiam orientar os síndicos sobre um padrão médio de conduta e criaram protocolos para os condomínios. Acredito que os síndicos se sentiram muito sozinhos em um primeiro momento. Foi um aprendizado para todos”, sustenta. Para a vice-presidente do Secovi-SP, outro ponto que fez toda a diferença foi a comunicação. Condomínios onde os síndicos se comunicaram com eficiência tiveram maior adesão às regras e menor índice de conflitos. “Quanto mais o síndico estabelecer regras de forma colaborativa e bem comunicadas, o estresse diminui e a adesão ao cumprimento das regras e o sentimento de participação são maiores.”


Matéria publicada na edição - 275 - fev/2022 da Revista Direcional Condomínios

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