Condomínio tem excesso de barulho na pandemia, o que fazer?

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Os hábitos de estudar e trabalhar em casa, impostos pela pandemia da Covid-19, mudaram a relação das pessoas com o condomínio. Antes mais automáticas, agora as rotinas do prédio e de seus ocupantes se entrelaçam e geram incômodos constantes por causa do barulho de criança, cachorro, conversas, reformas, festas e até contra comportamentos cristalizados de moradores (que não percebem o próprio ruído).

Síndico

Depois de um ano e meio de pandemia, os moradores estariam mais adaptados às rotinas do home office e home schooling? Os síndicos Sérgio Fernandes e Ivana Latanza falam sobre a questão

Em meio a tantos eventos de incômodos gerados pelo barulho de vizinhos, que surgiram nos últimos quinze meses de quarentena e/ou isolamento social preventivos à Covid-19, um deles se destaca porque corriqueiro e onde o próprio morador não percebia ser o causador do problema. A história:

Um síndico começou a receber queixas reiteradas do ocupante de um apartamento do 6º andar contra o vizinho “de cima”, dizendo que todo dia às 5h da manhã este fazia muito barulho. Mas o vizinho de cima apenas costuma preparar o café neste horário, o síndico conversou com ele, o conhecia. O gestor foi então buscar mais informações até descobrir o madrugador que causava o ruído. Ele mora dois andares acima do queixoso e o barulho em questão era provocado quando mexia a cama para arrumá-la. O aspecto curioso é que o ocupante do apartamento intermediário nunca havia se incomodado ou relatado a situação.

Por que aquele que está imediatamente abaixo da unidade não percebe o barulho?, questiona o síndico do caso, Sérgio Fernandes. Este é um exemplo de como a questão do barulho apresenta diferentes contornos, particularmente nesta época de pandemia. Sua origem pode estar nas deficiências do sistema de vedação acústica da edificação; em hábitos corriqueiros cujos reflexos passam despercebidos pelos protagonistas; em comportamentos que extrapolam as normas internas relativas ao sossego, segurança e salubridade; e até mesmo no atual nível de estresse das pessoas, que as tornou menos tolerantes ao ruído, analisa a arquiteta Eleonora Zioni, especialista em Arquitetura para a Saúde.

trabalhador em home office

Síndico profissional em 19 condomínios, Sérgio Fernandes destacava há cerca de um ano, à reportagem da Direcional Condomínios, quando a pandemia era recente, o aumento significativo das queixas dos condôminos relacionadas ao barulho do vizinho. Hoje, enquanto síndicos observam uma adaptação maior dos moradores ao home office e home schooling, Sérgio pontua que “as queixas estão do mesmo jeito, as pessoas se mantêm intolerantes ainda”.

As reclamações envolvem desde o despertador que toca durante uma hora na madrugada para acordar o trabalhador, a vizinhos que promovem “festinhas para suprir a falta da balada e extrapolam o horário”, passando pelos ruídos das reformas internas, de cachorro, criança etc. Isso não muda, observa Sérgio, assim como as ferramentas que os síndicos dispõem para encaminhar as reclamações. A primeira delas é buscar conciliar as partes, defende. “O síndico pode e deve intermediar essas questões, verificando inicialmente se a queixa procede, qual a origem efetiva do barulho, para então conversar. Prefiro ter essa abertura a deixar que os vizinhos tentem resolver entre si, pois muitas vezes eles não têm o tato necessário. A situação piora, pois um deles já está irritado com o barulho.”

De acordo com o síndico, a acústica dos prédios mais novos “não ajuda”, portanto, esse é um tipo de queixa que estará sempre batendo à porta da administração do condomínio.

HOME OFFICE X ADAPTAÇÃO

No interior de São Paulo, uma condômina obteve sentença judicial favorável contra vizinho que costumava ouvir música em volume alto nos horários em que ela trabalha e estuda. A juíza Danielle Caldas Nery Soares, da Vara do Juizado Especial Cível e Criminal de Birigui, assim decidiu no dia 29 de maio passado:

“CONFIRMO a decisão de concessão de tutela de urgência (...). JULGO PROCEDENTES os pedidos iniciais e CONDENO o réu a abster-se de reproduzir som em altura elevada durante os períodos e horários destacados na inicial, subsistindo a obrigação enquanto a requerente encontrar-se em Home Office e com aulas on-line.”

Cabe recurso da sentença, mas, por hora, estão valendo as restrições impostas pela magistrada: O vizinho terá que controlar o volume da música de segunda a sexta-feira, nos períodos das 12h10 às 20h22 e das 22 às 7 horas.

Apesar do exemplo acima, a síndica orgânica Ivana Latanza, administradora de condomínios há cerca de duas décadas, diz que em seu prédio o clima está mais ameno neste ano. Implantado há pouco mais de dois anos, o Condomínio Solar da Saúde, na zona Sul de São Paulo, registrava muitas mudanças e obras justamente quando veio a pandemia. “Havia um movimento muito intenso de instalação de pisos, armários, entre outros. Era necessário para as pessoas se mudarem, como se tornou necessário também o silêncio para o home office e o estudo”, analisa.

A saída foi restringir horários de obra e a circulação de prestadores de serviços, “o que durou alguns meses, mas nunca parou, não podia”. “Em setembro de 2020, fizemos uma pesquisa de opinião para saber se continuaríamos com as restrições, mas a maioria dos condôminos optou por revogá-las.” Em 2021, houve mais quatro apartamentos em obras dentre as 64 unidades, nem todas comercializadas. Ou seja, há perspectiva de mais reformas conforme sejam vendidas. Entretanto, Ivana Latanza conseguiu equilibrar a situação, acabou reeleita em abril passado por unanimidade, em assembleia virtual.

É claro que nem sempre os gestores conseguem evitar um ruído maior em cima do barulho:

“O barulho é o que sempre incomoda mais. Temos morador trabalhando em home office num apartamento de 52 m2 a 62 m2, sem muito espaço. Há famílias inteiras atuando dentro da unidade. Recentemente, por exemplo, tivemos uma discussão bem acirrada por conta disso, algumas pessoas estão muito nervosas, trabalhando com os filhos em casa, além da reforma do vizinho, que compra o apartamento e precisa se mudar. Fica uma barulheira tremenda, o que gera discussões acaloradas nos grupos de mensagens. Aí o síndico tem que entrar no meio da história para apaziguar, chegar a um meio termo entre as partes em conflito, até que se acalmem. Elas se acalmaram!”

O Solar da Saúde dispõe de espaço multiuso, com rede de wi-fi, que os moradores decidiram utilizar para o trabalho, com “agendamento prévio, mesas distanciadas e não mais que cinco pessoas simultaneamente”. “Chegamos a um consenso, quem se sentir incomodado desce para o espaço ou o salão de festas para trabalhar [se este estiver disponível].”

Nos demais condomínios onde Ivana atua, como administradora, não tem havido tantas reclamações em 2021 quando comparadas com 2020. “As pessoas estão mais adaptadas, mais conscientes, depois de um ano e meio de Covid-19, estão aprendendo a se comportar em condomínio.” E, se houver um conflito maior relacionado ao barulho, “o síndico deve buscar o consenso e pedir que cada um veja o lado do outro, precisa ter esse jogo de cintura”. “O síndico tem que tentar amenizar as partes para evitar que a confusão e a briga aumentem, que tomem uma proporção muito grande”, encerra.


Matéria publicada na edição - 269 - julho/2021 da Revista Direcional Condomínios

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