Playground - brinquedos & pisos: rigor para eliminar armadilhas

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Uma das áreas comuns mais utilizadas pelas crianças em condomínios, o playground é foco de várias exigências de segurança, que devem ser seguidas especialmente em relação à manutenção e limpeza, incluindo brinquedos e pisos.

Dentro do condomínio, o playground é um espaço de convivência privilegiado, em que crianças interagem e aprendem regras de socialização, e adultos aproveitam o tempo livre para estreitar o relacionamento com vizinhos. Mas brinquedos com parafusos frouxos ou desencaixados, farpas expostas e pregos enferrujados representam perigo iminente e um risco considerável à segurança da criançada. Os cuidados com a manutenção do playground devem ser levados em conta já no seu planejamento. Em playgrounds localizados a céu aberto, brinquedos de madeira, por exemplo, devem receber tratamento especial para aumentar a durabilidade e a resistência às intempéries.

Em 2012, a Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) atualizou procedimentos de implantação e manutenção de playground, com a NBR 16.071, em substituição às normas 14.350-1 e 14.350-2, ambas de 1999. A norma foi dividida em sete partes: terminologia; requisitos gerais de segurança; requisitos de segurança para pisos, absorventes de impacto; métodos de ensaios; projeto da área de lazer; instalação; inspeção, manutenção e utilização. Sobre este último item, a nova norma da ABNT segmenta as manutenções em rotineira e preventiva, conforme o resumo a seguir:

Na manutenção rotineira, sua orientação é a de que o condomínio:

• verifique se fechos e porcas dos brinquedos estão apertados;

• repinte ou corrija defeitos de pintura;

• mantenha o piso de amortecimento de impactos;

• lubrifique as peças e promova sua limpeza;

• remova pedaços quebrados de vidros e outros contaminantes;

• restaure sempre a nivelação do piso; e,

• mantenha as áreas livres.

Já a manutenção corretiva recomenda as seguintes ações:

• repor fechos/ ligamentos/ presilhas/ parafusos etc.;

• soldar quando necessário;

• repor partes desgastadas ou com defeitos;

• repor componentes estruturais defeituosos.

Para um procedimento eficiente, a inspeção é imprescindível. A ABNT orienta realizá-la em três níveis. A rotineira é resultado da observação diária de funcionários e moradores do condomínio, e identifica os perigos decorrentes do uso ou de ações de vandalismos. Para facilitar a comunicação dos problemas encontrados, recomenda-se manter um livro de registro de falhas com acesso ao público, permitindo aos moradores anotarem suas queixas e reclamações.

Já uma inspeção registrada deve ser feita por funcionário do condomínio a cada um ou, no máximo, três meses, com o objetivo de apontar falhas, deteriorações ou desgastes resultantes do uso ou ataques. E para uma inspeção certificada, é necessário contar com um profissional que tenha CREA (registro profissional para engenheiros) ou CAU (registro profissional para arquitetos) e esteja familiarizado com as normas. Esse especialista deve estudar o manual dos brinquedos, verificar se há algum item que precise ser desmontado para a inspeção, e até fazer ensaio de impacto do piso, caso entenda como necessário. A norma recomenda que essa vistoria seja feita duas vezes por ano, de preferência ao final das férias escolares, e que seu prazo não exceda doze meses.

MEMORIAL DE INSPEÇÃO E USO

“Fora do Brasil, a vistoria profissional acontece normalmente, faz parte da rotina de manutenção de playgrounds em áreas públicas ou privadas. Em nosso País, essa cultura ainda não existe, mas isso tende a mudar. O Inmetro está à frente do processo que torna a vistoria obrigatória em território nacional e, em São Paulo, a prefeitura estuda a implantação da obrigatoriedade do controle certificado dessas áreas”, afirma o arquiteto Fábio Namiki, que coordenou a elaboração da NBR 16.071/2012.

Em qualquer das vistorias, caso sejam identificados defeitos que coloquem em risco a segurança e eles não possam ser corrigidos, a orientação é a de manter o equipamento fora de uso e com sinal de interdição até que seja feito o reparo ou substituição. Namiki salienta que adotar o livro de registro específico para manutenção do playground é a primeira providência a ser tomada logo após sua instalação. “Quando o brinquedo chega, deve ser feito o seu registro no livro com as orientações de manutenção e limpeza. Depois, ele deve receber registros diários ou de pequena periodicidade, em que pais ou responsáveis anotem o que observaram de errado. Parece uma bobagem, mas forma um memorial sobre o estado do playground”, afirma. Afora isso, existem as orientações do fabricante.

PISO, UM TESTE À SEGURANÇA

Outro importante componente dessa área é o revestimento. Este foi o principal motivo que gerou mudanças no playground do Condomínio Vila Borghese, localizado na Vila Mariana, zona Sul de São Paulo. Com 33 anos de existência e três torres, o condomínio nunca havia feito qualquer reforma no setor. Os brinquedos, muito velhos, recebiam manutenção constante, mas a preocupação estava mesmo no piso de areia.

“Sua limpeza gerava um custo muito alto. Tínhamos que fazer assepsia semanal e trocar toda a areia com frequência. Mas o que mais nos preocupava eram as infiltrações provocadas pelo grande volume do material, que favorecia a concentração de água, bem em cima da garagem”, afirma o síndico Vilamar Brião. A instalação do playground, da época da construção, fora feita sem nenhum cuidado extra com a impermeabilização da laje, e o risco causado pelas infiltrações na garagem era iminente.

“Revitalizar o playground sempre esteve nos meus planos e os condôminos apoiaram a iniciativa, porque sabiam que o novo projeto valorizaria o condomínio. Optamos por refazer a área toda, da fundação ao piso. Impermeabilizamos tudo e, depois de muita pesquisa, escolhemos a grama sintética, aplicada em cima de uma base especialmente preparada para absorção de impactos. Hoje, o playground é uma das áreas mais bonitas do condomínio, com brinquedos de madeira certificada e a manutenção é extremamente simples. A limpeza da superfície é feita quase da mesma maneira que a de um carpete, com aspirador de pó”, completa Brião.

Mara Cabral, arquiteta especialista em áreas de lazer e recreação, afirma que, para evitar dores de cabeça, o condomínio deve mesmo pesquisar bastante para definir o piso do playground. Além de questões relacionadas ao custo e à complexidade da manutenção, a nova NBR 16.071 indica que o principal critério para sua escolha está na capacidade de absorver o impacto de eventuais quedas, pois essa é a principal função do revestimento do playground (Essa característica é medida por fórmulas que relacionam altura máxima possível de a criança alcançar no brinquedo e características do piso, entre elas, a espessura). Por isso, há a necessidade de o síndico fazer uma boa pesquisa para a escolha do material adequado ao tamanho e volume de uso da área.

Mara salienta que a manutenção dos diferentes tipos de pisos deve seguir a especificação do fabricante e, em superfícies com grama natural, é necessário analisar frequentemente o espaço para fazer o plantio das áreas desgastadas. No caso dos pisos intertravados de borracha vulcanizada, “a manutenção é basicamente feita por limpeza e, depois de cinco anos de uso, com recolagem de possíveis peças descoladas do contrapiso”, afirma a arquiteta. De outro modo, superfície com areia deve ser bem arejada e mexida constantemente para evitar que o solo fique compactado. A areia em si já representa um brinquedo, mas quando usada no amortecimento, ela deve ter critérios diferenciados, como uma profundidade de no mínimo 50 cm.

“APOSENTADORIA”

Avaliar o momento de “aposentadoria” de um brinquedo ou piso também entra como importante componente da manutenção do playground, e o que determina isso é o seu custo. A necessidade de uma substituição fica evidente quando se torna mais caro mantê-lo que adquirir um novo. De qualquer forma, Fabio Namiki ressalva que “não existe um brinquedo melhor do que outro. Há brinquedos mais indicados para uma determinada situação, e um arquiteto ou engenheiro vai saber apontar a melhor solução. Às vezes você tem um brinquedo inadequado, mas pouquíssimas correções já o enquadram na norma da ABNT”, esclarece o arquiteto.

SUPERVISÃO DE ADULTOS, OBRIGATÓRIA ATÉ 5 ANOS

Se alguma coisa acontece no brinquedo e o pai resolve processar o responsável – no caso do condomínio, o síndico -, a Justiça se baseará na norma da ABNT para definir se houve uma fatalidade ou não. A NBR foi feita para evitar acidentes. Caso o síndico seja negligente, não fez a manutenção, comprou um brinquedo que não é certificado (todo equipamento deve ser acompanhado do selo de certificação do Inmetro), não contratou um profissional qualificado para fazer a implantação do playground, ele vai responder por isso. A Justiça vai considerar o cumprimento da norma para determinar a culpabilidade do ocorrido, acredita Namiki.

Por isso, Namiki se empenha em “mostrar a importância desses procedimentos” aos síndicos e condomínios. Ele reitera que a vistoria só pode ser considerada como certificada se houver um responsável técnico por trás. No caso de acidentes em que fique comprovado que o brinquedose encontrava fora das normas, o responsável pela vistoria será penalizado.

Mas os pais também devem fazer sua parte para a prevenção de acidentes. “O número de ocorrências em playgrounds é maior do que a gente pensa. E a maior parte acontece por negligência no projeto, compra ou manutenção, mas em muitos a falta de acompanhamento da criança por um adulto é determinante. A criança não tem noção do perigo e os brinquedos foram projetados para serem usados sob a supervisão de um adulto, especialmente junto aos menores de cinco anos”, finaliza Namiki. (Reportagem Raquel Zardetto)

Matéria publicada na edição - 184 de out/2013 da Revista Direcional Condomínios