Degradação das superfícies traz riscos à vida e ao patrimônio

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A estudante de engenharia civil Larissa Spezani Resende, de 20 anos, foi atingida por placas de mármore que descolaram de varanda de um prédio residencial no Leblon, zona Sul do Rio de Janeiro, no dia 6 de março (quarta-feira de cinzas).

Larissa conversava com uma amiga na calçada, foi atingida na cabeça e no braço, e passou por pelo menos quatro cirurgias (três no cérebro). Ficou na UTI ao longo do mês de março e, até notícias mais recentes, seguia hospitalizada.

Em entrevista ao jornal O Globo, o coordenador da Comissão de Prevenção de Acidentes do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (CREA) do Rio de Janeiro, Jorge Mattos, identificou sinais de corrosão no prédio, provavelmente causada por infiltração. “Com a infiltração, a barra de armadura corroeu e se expandiu, provocando o chamado ‘desplacamento’. Aos poucos, empurrou o concreto e, na sequência, o revestimento [placas de mármore]”, disse ao jornal. Ou seja, a degradação do sistema que compõe a fachada ocorreu num processo gradual, ao longo do tempo. Depois do acidente, parte da frente do condomínio foi interditada pela Defesa Civil, que verificou riscos de novas ocorrências.

Em São Paulo, é comum observar-se prédios com sinais acentuados de degradação dos revestimentos das fachadas, apesar de a legislação municipal obrigar à manutenção (pintura) a cada cinco anos.

A Direcional Condomínios separou três imagens de prédios localizados na Zona Oeste da Capital paulista e as apresentou a uma leitura prévia do engenheiro Jorge Aranda González. O especialista tem formação em Engenharia Civil Industrial (e Produção) e de Segurança do Trabalho. Ele avaliou (abaixo e na pág. ao lado) as possíveis causas das marcas de infiltração presentes nas fotos.

Patologias visíveis & possíveis causas

argamassa mineral com umidade

Exemplo de argamassa mineral com umidade

Segundo Jorge Aranda, é provável que a proliferação de mofo e/ou bolor no elemento arquitetônico e fachada tenha sido gerada pelo acúmulo de umidade no local. “As argamassas minerais naturalmente absorvem mais umidade que os revestimentos acrílicos. Quando não é realizada a manutenção preventiva, os elementos hidrofugantes [aditivos misturados às argamassas ou concreto para proteção dos diferentes substratos] perdem vida útil, eficiência e eficácia no seu objetivo e, em consequência, criam patologias e/ou danos estéticos como na foto. Além disso, eles devem ser aplicados conforme orientação dos fabricantes.”


alvenaria comum

Exemplo de alvenaria comum

Além das trincas saindo por debaixo das quinas das esquadrias, há sinais de descascamento da tinta e de umidade. Entre as causas prováveis dos sinais presentes na imagem, o Eng. Jorge Aranda observa:

- Falta do elemento arquitetônico conhecido como pingadeira [nas janelas];

- Danos mais acentuados nos revestimentos da alvenaria próximos “daqueles vãos de janelas que possuem elementos adicionais, como redes de proteção e gradis (3 do lado esquerdo da imagem, 1 do lado direito)”;

- Eventuais falhas no projeto, manutenção ou “em uma intervenção sem visão e/ ou avaliação de danos possíveis que poderiam ser causados”. “Isso diminui o tempo de vida útil do revestimento”;

- Por fim, trincas e/ou fissuras tipo bigode [também presentes na imagem]. Essas podem ser “originadas a partir da premissa de movimentação higroscópica [retrações térmicas]” e/ou pela “diferença de esforços nos vão de portas e janelas, entre outros”.


guarda-corpo de varanda

Exemplo de infiltrações em guarda-corpo de varanda

Neste caso, Jorge Aranda aponta diferentes situações que possam ter atuado “conjuntamente para formar o cenário exposto pela foto”:

“A) Movimentação da estrutura em balanço;

B) Fim da vida útil ou baixa qualidade da manta que deve existir na área externa (sacada-terraço);

c) Problemas nas argamassas aplicadas acima da manta de impermeabilização, envolvendo a proteção mecânica, piso, espessura, traço etc.; e,

d) Esforços aplicados pelo próprio guarda-corpo, incluindo possíveis infiltrações na sua base.”

Fotos: Rosali Figueiredo


Matéria publicada na edição - 245 - maio/2019 da Revista Direcional Condomínios

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