Para o uso sustentável da água no condomínio é preciso gestão eficiente da demanda

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“A mudança para um comportamento mais sustentável é a parte mais difícil de se implementar se não houver um estudo anterior de percepção do quanto e como as pessoas estão dispostas ou sabem como usar a água de forma mais responsável. ... Nossa relação com a água não é ‘racional’. É biológica, lúdica e comportamental.”

Existe um mito que basta “conscientizar” para mudar um comportamento. Todos nós já somos conscientes que cigarro provoca câncer. Daí até parar de fumar...

Em comparação, a educação ambiental é uma ferramenta limitada para que se use a água de forma mais responsável, num condomínio por exemplo. Ela funciona em grupos de pessoas que já estão propensas a mudar para um comportamento mais sustentável.

Para uma gestão eficiente da demanda da água em condomínios, temos que trabalhar em duas frentes importantes:

- De forma estruturante, provendo o condomínio de tecnologias que ajudem uma gestão mais racional da água. São elas:

a) Sistemas de reuso, como captação de água de chuva;

b) Medição individualizada, quando possível;

c) Controle de vazamentos;

d) Substituição de válvulas de descargas ou dispositivos de caixas acopladas;

e) Implantação de redutores de vazão, arejadores etc.

- De forma não estruturante, que tem a ver com a maneira como as pessoas se comportam ao lidar com a água no dia a dia.

Isso implica em mudança de comportamento. Reduzindo tempo de banho, reusando as águas servidas para limpeza bruta (de máquinas de lavar, por exemplo). Entretanto, a mudança para um comportamento mais sustentável é a parte mais difícil de se implementar se não houver um estudo anterior de percepção do quanto e como as pessoas estão dispostas ou sabem como usar a água de forma mais responsável.

Por exemplo, os jovens adoram banhos mais longos, comprovadamente. As crianças são mais fáceis de assimilar novos comportamentos. Lavar uma calçada com mangueira é uma forma de reduzir o estresse numa cidade inóspita. Nossa relação com a água não é “racional”. É biológica, lúdica e comportamental. Não costumamos ler ou procurar entender todas informações de consumo existentes numa conta de água. 

Assim como criamos ou temos barreiras e motivações para consumir, temos barreiras e motivações para reduzir o consumo ou consumir de forma mais sustentável. A maioria se comporta no “piloto automático”: “Tô nem aí!” “Eu pago a minha conta.” “Nem me lembrei de fechar a torneira”.

Só nos damos conta do valor e da importância da água quando ela realmente falta.

O professor colombiano Antanas Mockus classifica as motivações das pessoas de acordo com os três sistemas de regulação usados pela sociedade contemporânea: Lei, moral e cultura.

Assim, de acordo com essa teoria, nos comportamos socialmente: 1. Por respeito ou medo da sanção legal – multa ou cárcere; 2. Pelo código de conduta moral que trazemos de casa – Se aprendi que não devo desperdiçar água, provavelmente, sentirei “culpa” ao desperdiçar; 3. Se não existe controle ou desagravo social pela comunidade que estou inserido, não me sinto motivado a mudar o comportamento.

Mockus enfatiza que, se conseguirmos alinhar esses três fatores - lei, moral e cultura, se reduzirá boa parte das barreiras para mudança social visando o bem comum. Portanto, facilitando o pacto social para se adotar um comportamento mais sustentável.

Para concluir. Na questão do uso responsável da água em condomínios é preciso fazer a gestão eficiente da demanda procurando mudar comportamentos não sustentáveis. A educação ambiental e o marketing social são ferramentas para atingir o grupo de pessoas que estão propensas a mudar para um comportamento sustentável de uso da água. O grupo que não está nem aí terá que ser convencido pelo uso da tecnologia (medição individualizada da água, por exemplo, quando técnica/economicamente possível), da educação, do marketing social e, principalmente, aplicação da norma, “lei”, multa e desagravo do corpo social do condomínio onde esse grupo está inserido. Por isso, dissemos de forma popular que somos mais sensíveis no bolso.

Entretanto, antes de implantar novas tecnologias ou fazer do uso da educação ambiental e campanhas de marketing social no condomínio, pesquise quais são as barreiras, motivações, intenções de mudar dos condôminos e limitações técnicas do próprio condomínio sobre a questão do uso sustentável da água. Vale a pena chamar especialistas no assunto para ajudar

A partir dessas respostas se poderá montar um programa eficiente de gestão da demanda na questão do uso sustentável da água.

Gilmar Altamirano

Ex-síndico, é especialista em meio ambiente e sociedade e diretor presidente da Universidade da Água – OSC (Organização da sociedade civil de interesse público).
Mais informações: O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. / https://www.uniagua.org.br.


Matéria complementar da edição - 241 - jan/19 da Revista Direcional Condomínios

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