Condomínios apostam em investimentos contínuos na área de segurança

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A área da segurança patrimonial das edificações demanda investimentos sem trégua por parte de síndicos e condôminos.

Síndico Marcio
Quaiato Perez

Síndico Marcio Quaiato Perez: Diagnóstico de segurança tem ajudado o condomínio a reforçar sistemas e procedimentos

Novas soluções em tecnologia surgem em curto espaço de tempo, enquanto a criminalidade cresce, bate às portas dos prédios com artimanhas e disfarces e impõe a necessidade de vigilância constante a este setor.

É o caso de um condomínio-clube de 316 apartamentos e três torres, localizado no alto da Mooca, na zona Leste de São Paulo, que já vinha pensando em fazer um upgrade em seus sistemas quando testemunhou a tentativa de invasão de um prédio vizinho, em agosto passado. O Grupo de Trabalho de Segurança do empreendimento, criado pelo síndico Marcio Quaiato Perez, decidiu então acelerar as ações e buscou o suporte de um diagnóstico de segurança, contratado junto ao consultor José Elias de Godoy, tenente-coronel da reserva da Polícia Militar de São Paulo.

“Daremos um enfoque maior no controle de acesso, com modernização dos equipamentos e diminuição da necessidade de intervenção humana”, afirma o síndico, destacando, por exemplo, o reforço na biometria. Mas não só: O condomínio está reavaliando a logística de funcionamento de suas duas portarias, localizadas em ruas diferentes, ambas com passagens de veículos e pedestres. Moradores ganharão um Manual de Normas e Procedimentos, terão palestra de orientação e os funcionários vêm passando por treinamento.

As medidas estão sendo discutidas pelo GT de Segurança, composto por 35 moradores, afirma Marcio. “Através do WhatsApp, o grupo compartilha informações, opiniões, atas e orçamentos, e discute experiências de outros condomínios”, explica. Algumas mudanças, que demandam elevado investimento e/ou mudança no Regimento Interno, serão levadas para deliberação da assembleia. O condomínio pretende instalar 158 câmeras, reforçando o alcance das 82 existentes. O objetivo é colocá-las nos halls de serviço de todos os andares das três torres e disponibilizar as imagens aos moradores dos respectivos pavimentos.

RISCOS NA “PORTA DA FRENTE”

controle de acesso

Consultor José Elias de Godoy: Os condomínios precisam “trabalhar muito forte o controle de acesso”

De acordo com o consultor José Elias de Godoy, o condomínio administrado pelo síndico Marcio localiza-se em uma região de elevado número de ocorrências, por isso, “o controle de acesso está sendo ajustado com tecnologia e aprimoramento dos procedimentos”. O aumento dos casos de invasões e furtos nos condomínios em 2018 “preocupa muito”, afirma. “Cheguei a ir, em uma única semana, a quatro condomínios com registros de invasões”, completa. “E isso tem acontecido da mesma forma: Entrada pela porta da frente, burlando o controle de acesso.”

Segundo José Elias, os condomínios precisam “trabalhar muito forte” nessa parte da edificação, principalmente nos procedimentos. “O equipamento ajuda, mas no procedimento da entrada é que não se pode falhar.” De outro modo, quanto mais sofisticada e integrada a tecnologia, a exemplo do sistema de biometria facial, “menor o campo de ação do controlador de acesso e, portanto, menor a probabilidade de erro”.

O consultor observa que as invasões para “furtos qualificados mediante arrombamento de unidades” têm sido realizadas com a burla dos procedimentos, enganando-se o porteiro. “Em geral, os bandidos sabem que o apartamento está vazio; furtam tudo o que se possa levar facilmente, do celular à bicicleta”. “O grande segredo do controle de acesso é o porteiro, que deve liberar a entrada somente com autorização expressa. E o morador não pode dar ‘carona’. Em alguns casos pode até haver conivência do morador, às vezes em dívida com traficantes, que libera entrada para assaltantes”, resume o consultor.

COMUNICAÇÃO AJUDA A CONSOLIDAR NORMAS

Síndico profissional
Carlos Abreu

Síndico profissional Carlos Abreu: “A palavra condomínio não está enraizada nas pessoas enquanto ambiente compartilhado, onde elas precisam conversar e conciliar e não fazer o que querem”

O síndico profissional Carlos Abreu, também secretário do Conselho de Segurança Portal do Morumbi (Conseg), está conduzindo o aprimoramento do sistema em condomínio de alto padrão localizado na região de Pinheiros, zona Oeste de São Paulo. Na edificação, de uma torre e 50 unidades, Carlos Abreu encontrou um bom aparato de equipamentos ao assumir a sindicância neste semestre, incluindo portaria blindada, 130 câmeras e sala blindada com monitores. Mas identificou “falhas de procedimentos”, “falta de protocolo”, além de câmeras instaladas em posições ou locais errados.

“Para quem chega, parece muito bem protegido, mas tínhamos casos de entregas nos apartamentos”, questiona. O gestor fala de exceções que eram abertas para alguns entregadores de produtos perecíveis não cadastrados previamente, ferindo determinação do Regimento Interno.

“A palavra condomínio não está enraizada nas pessoas enquanto ambiente compartilhado, onde elas precisam conversar e conciliar e não fazer o que querem.” Disto surgem as vulnerabilidades que irão furar o controle de acesso e permitir invasões, analisa. Deste modo, Carlos defende a necessidade de se investir também na comunicação com os moradores e nos processos de discussão de novas normas. “Escutar o que eles têm a falar e assumir a responsabilidade de gestor faz toda diferença”, diz. É preciso, orienta, utilizar recursos como murais, painéis eletrônicos nos elevadores, grupos de WhatsApp e circulares para informar, com objetividade e assertividade, sobre o porquê das regras.

Outro aspecto que contribui para o acatamento às normas é envolver o conselho e comissões de moradores nas discussões sobre o sistema. “A tendência é a tomada de decisão compartilhada”, afirma.

Segundo Carlos Abreu, a portaria é, de fato, o ponto “mais crítico” sobre o qual os condôminos precisam se debruçar. “Deve ser analisado como as pessoas são recebidas e anunciadas; como os moradores entram e saem; observar se funcionários e condôminos respeitam as regras, e se os primeiros são coagidos por estes. Ainda vemos muito, também, os porteiros liberarem acesso a mulheres atraentes, mas rotina é algo que não se quebra”, exemplifica.

O gestor propõe que os síndicos cuidem ainda da integração do condomínio com a sua região. “No Conseg, que trata da segurança e zeladoria do bairro, podemos solicitar iluminação pública, limpeza de praças e terrenos abandonados, que servem de abrigo para bandidos, conhecer os policiais e os vizinhos. Com isto, reforçamos a proteção primária. É uma rede que se organiza e conquista melhorias”, justifica. Por fim, ele defende a implantação do programa Vizinhança Solidária, experiência que tem acompanhado no Jardim Ampliação, no Morumbi, onde mora.

PORTARIA VIRTUAL

Nessa experiência com o Conseg e o programa comunitário, Carlos Abreu vem observando o crescimento de prédios com portarias automatizadas ou virtuais (de atendimento à distância), sem a presença do porteiro físico. “O condomínio deve entender a sua dinâmica, como a movimentação de prestadores de serviços e entregadores, para definir o formato que melhor lhe atende. Muitas vezes a portaria convencional é necessária para dar mais agilidade aos fluxos de entrada e saída. Em outras, funciona bem o modelo híbrido. Não dá para chegar num prédio com um pacote fechado, é preciso conhecer suas particularidades”, pondera.

Para o síndico profissional Paulo Mujano, a experiência da automatização cabe bem a determinadas edificações. No condomínio onde mora e que administra, o Boulevard, com 20 unidades e localizado na região da Av. Paulista, ele implantou com sucesso há pouco mais de dois anos um formato misto. Este alterna um período de atendimento pelo porteiro presencial com outros horários e dias da semana em que somente moradores realizam o controle.

Agora, Paulo assumiu a sindicância profissional em um residencial de alto padrão do bairro de Moema, de apenas quinze unidades, onde implantará a portaria virtual, com tecnologia para atendimento remoto. O modelo já havia sido definido pela assembleia de condôminos com o objetivo de reduzir custos e a elevada taxa de rateio no local, a qual tem dificultado a comercialização de imóveis. De acordo com o síndico, o prédio poderia funcionar bem apenas com a automatização da portaria, sem a interferência do funcionário da central remota, “mas os moradores fazem questão de haver uma dupla checagem nos acessos”.


Matéria publicada na edição - 240 - nov-dez/18 da Revista Direcional Condomínios

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