Construindo um ambiente favorável ao consenso no condomínio

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Uma das funções do síndico é fazer “o gerenciamento dos conflitos”, afirma o advogado Cristiano De Souza Oliveira, que atua como conciliador e mediador privado, faz mestrado em Resolução de Conflitos e Mediação e é membro do Conselho de Estudos de Resolução de Conflitos Empresariais e do Conselho do Setor de Serviços, da Associação Comercial de São Paulo (Distrital Centro).

No condomínio, os conflitos possuem natureza diversa, explica: A institucional (envolvendo condomínio e problemas no bairro), de gestão (como normas de reformas nas unidades) ou entre vizinhos. E tem causas diferentes também, desde a incompatibilidade de objetivos a polarizações de atitudes.

Nesse sentido, é importante para o gestor, em primeiro lugar, construir um ambiente coletivo “onde se desenvolva o sentimento de pertencimento, em que todos são vistos como iguais, inclusive os inimigos, pois o interesse maior é a valorização do patrimônio”, destacou o advogado na palestra que ministrou durante o 3º Encontro de Síndicos da Direcional. Outro ponto é fazer a “administração da informação”.

Na prática, segundo o especialista, é preciso diminuir o ruído tirando as controvérsias do campo pessoal. Temas que impactam nos hábitos dos moradores costumam ser mais explosivos e devem ser tratados dentro do contexto das regras do condomínio, sem dar margem a polarizações e ao embate entre o que é certo ou errado, bem ou mal.

Um segundo passo é trabalhar posturas pessoais do próprio gestor, dando prioridade a “conhecer, escutar, planejar e agir” (verbos que formam o acrônimo CEPA). Cristiano De Souza lembrou no evento que o síndico pode dar margem a conflitos se mantiver comportamentos como os classificados abaixo pelo psicanalista Horst-Eberhard Richter e adaptados ao ambiente condominial:

- Deter a falsa ideia de que ele está sempre certo e seguro porque é quem conhece a situação do condomínio;

- Fazer imposições sem conhecer as pessoas;

- Agir com base em ideias preconcebidas, em preconceitos, tachando de “chato” um morador que traga uma demanda;

- Não assumir responsabilidades, como se erros cometidos por gestões anteriores não tivessem que ser solucionadas em seu mandato;

- Não acreditar nas inovações demandadas pelos condôminos.

“Essa é uma forma básica de se criar conflitos”, ressaltou. Ou seja, é o famoso “vou morrer assim”. “Mas a sociedade é dinâmica e se altera. O síndico pode apostar nas inovações e convidar o condômino a assumir a responsabilidade por elas”, arrematou.

Estabelecido o conflito, o que fazer?

O terceiro passo para o gerenciamento de conflitos é começar a mapear os problemas, a saber:

1 – Tomar ciência do que está acontecendo e identificar os envolvidos; e

2 – Definir se é um embate entre vizinhos, interpessoal ou se envolve o coletivo. Depois, buscar soluções:

3 – Nas questões pessoais, o síndico pode agir como um facilitador, apresentando recursos para solução, como a mediação; e,

4 – Nos problemas coletivos, ele deve levar o tema para deliberação de assembleia.

A resolução de conflitos prevê ferramentas como a conciliação e mediação, a negociação (onde não há a figura de um facilitador); e a arbitragem (quando as partes elegem um terceiro, que apresentará a solução), entre outros.

Em artigo veiculado no Portal Migalhas em 2017, a advogada e pesquisadora Fernanda Medina Pantoja, professora da PUC do Rio de Janeiro, anotou que o Código de Processo Civil define a conciliação como o processo destinado a “conflitos episódicos”, “objetivos”, enquanto a “mediação” envolve “relações continuadas no tempo, nas quais subjazem também aspectos subjetivos”.

Fake news podem desestabilizar ambiente do condomínio

Um dos temas mais controversos das eleições gerais de 2018 no Brasil, as chamadas fake News (notícias falsas) podem desestabilizar o ambiente do condomínio, alerta o advogado José Roberto Graiche Junior, presidente da Aabic (Associação das Administradoras de Bens Imóveis e Condomínios de São Paulo).

Em nota divulgada recentemente através da administradora onde exerce a vice-presidência, Graiche Junior citou o caso de um residencial, cliente da empresa, onde moradores descontentes com o perfil do síndico recém-empossado começaram a veicular, através do WhatsApp, que este “demitiria em massa os funcionários”. Isso gerou grande conflito, diz o advogado, “desencadeando uma assembleia e, por conta do estresse, a destituição do síndico e renúncia do conselho consultivo”.

Mesmo que boa parte das pessoas participem dessas redes com o objetivo de se informar sobre o prédio, “muitos condôminos usam o meio para produzir ou compartilhar dados fictícios”. Além de gerar riscos para o ambiente condominial, isso implica em responsabilidade legal, como “a possibilidade de a mensagem ser caracterizada como crime”, por “incluir informações caluniosas, difamatórias ou injuriosas contra alguém, de acordo com os Art. 138 a 140 do Código Penal”. “Orientamos nossos síndicos para alertar os moradores quanto a esta prática. Em casos desta natureza, aconselhamos que se cheque a fonte, converse com quem noticiou a informação falsa, que o intuito do grupo não é esse, e que inclusive, tais informações não são a postura do condomínio”, completa Graiche Jr.

Prevenção

Síndicos que têm reportado à Direcional Condomínios experiências bem-sucedidas de uso do WhatsApp para se comunicarem com comissões temáticas ou o conselho, como Kelly Remonti e Marcio Quaiato Perez, adotam com rigidez a norma de exclusão de todo e qualquer assunto, além do seu portador, que não esteja relacionado à finalidade do grupo. “Em nossos grupos estão vetadas questões pessoais e políticas”, reforça Marcio Quaiato.


Matéria publicada na edição - 240 - nov-dez/18 da Revista Direcional Condomínios

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