Moradores estrangeiros no condomínio: A gestão das diferenças

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A advogada e síndica Gláucia La Regina se prepara para receber moradores estrangeiros no Condomínio Edifício Giordana, na região do metrô Vila Madalena, zona Oeste de São Paulo.

Síndica Glaucia La Regina

Síndica Glaucia La Regina: Modernização do prédio atrai estrangeiros na compra ou locação de imóveis

Com apenas dez unidades e uma em comercialização, ela tem observado uma procura crescente de estrangeiros pelo prédio, especialmente por causa de um amplo processo de modernização, que recuperou as instalações, reforçou a segurança (patrimonial e predial) e repaginou áreas comuns.

Para Glaucia, o fenômeno deixa aos gestores o desafio de adequar, sobretudo, a comunicação. É preciso explicar, esclarecer e colocar-se à disposição para auxiliar na adaptação dos estrangeiros às normas internas, diz. E entender os hábitos distintos, que podem gerar “casos extremos”, como o de um morador que desceu pelo elevador de “cueca, toalha e sabonete para tomar banho na piscina” no prédio onde mora uma amiga. Glaucia defende que o proprietário do imóvel em comercialização entregue, para estrangeiros, a cópia do Regulamento Interno em versão bilíngue.

Já o consultor de segurança José Elias de Godoy, tenente-coronel da reserva da Polícia Militar de São Paulo, recomenda atenção maior nos procedimentos de segurança para protegê-los de pessoas que tentam aproveitar a dificuldade do idioma para entrar no condomínio. José Elias é síndico no edifício onde mora, na Mooca, zona Leste de São Paulo. Com duas torres e 76 unidades amplas, o residencial tem famílias coreanas, chinesas, japonesas e árabes. O convívio é tranquilo, “não altera a rotina do condomínio”, afirma. “Porém, temos um controle de acesso rigoroso, se a biometria falha, fazemos a identificação individualizada. Nossos porteiros são orientados a usar uma comunicação pausada, sem atropelo, pela dificuldade do idioma. Enquanto o morador não deixar claro que a visita está liberada, esta não entra.” Sobre eventual estranhamento de hábitos, José Elias diz que acontecem alguns casos, rapidamente solucionados, pois o estrangeiro “costuma acatar as regras”.

“FACILITADOR ATUA COMO INTÉRPRETE”

Nos últimos cinco anos, o diretor Marcio Bagnato testemunhou o aumento do número de estrangeiros nos condomínios atendidos pela administradora em que trabalha. Predominam pessoas nascidas em países asiáticos, que, em geral, sempre escolhem, entre eles, um interlocutor com o condomínio, “um facilitador que atua como intérprete (nas assembleias, por exemplo), auxilia na elaboração de circulares e até participa do conselho, justamente para que esta comunidade tenha representatividade”.

Marcio acrescenta que inexiste um regulamento específico para atender às comunidades. “Entendemos que a regra geral e o nosso costume local deve nortear e disciplinar as questões dentro do condomínio, exatamente para evitar pontos de conflito.” De qualquer maneira, ele conta que chegou a adaptar um Regulamento Interno em função de moradores que secavam peixes nas varandas. O hábito não foi coibido, apenas se estabeleceram condições sanitárias para que a prática não incomodasse os vizinhos.

Quanto à segurança, o administrador observa que a tecnologia atual de controle de acesso, com biometria, facilita o trabalho do porteiro, já que dispensa a necessidade de comunicação direta. O que falta é um pouco mais de investimento em placas de comunicação e sinalização para esse público, “mas o condomínio se preocupa em comunicar-lhes de forma assertiva suas decisões e circulares”.


Matéria publicada na edição - 239 - outubro/2018 da Revista Direcional Condomínios

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