Condomínios apostam em playgrounds e brinquedotecas. Espaços devem ser seguros

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O síndico e arquiteto Marcus Vinícius Abrantes tem observado que a mudança de hábitos e a renovação da faixa etária dos condôminos está introduzindo a necessidade por novos ambientes nos prédios residenciais, entre eles playground e brinquedoteca.

O síndico Paulo Mujano e o playground do Condomínio Golden Hill. Área inexistia até 2017

No condomínio onde mora e que administra como síndico orgânico há três anos, o antigo salão de festas deverá dar lugar parcialmente a uma brinquedoteca. O residencial possui 80 unidades, foi construído no final dos anos 70 na região do Parque do Ibirapuera, em São Paulo, e possui hoje famílias jovens com crianças pequenas, como é o seu caso.

Também o síndico profissional Paulo Mujano, à frente do Condomínio Golden Hill, entregue em 1995 com apenas 19 unidades, em Moema, na zona Sul da cidade, percebeu que a alteração na faixa etária dos moradores está mexendo com o perfil da edificação. Em 2017, o prédio ganhou um playground, área inexistente até então. No Golden Hil, porém, este representa uma das primeiras entre outras inovações pretendidas pelos condôminos, que dispõem de uma comissão focada nas mudanças. Para isso, o grupo, juntamente com o corpo diretivo, contratou um projeto arquitetônico de retrofit das áreas comuns, a ser implantado em “cinco etapas”, afirma o síndico.

Para o playground, a comissão optou por brinquedos que ficassem integrados ao paisagismo, por isso a escolha da madeira como material predominante. Voltado à faixa etária de 7 a 12 anos, o ambiente atende à expectativa das famílias das crianças, assim, ele incorpora uma cama elástica, sobre a qual o síndico fez restrições. Ele acredita que o equipamento potencializa os riscos, de qualquer maneira, foi estabelecida uma regra de uso: Ela poderá ser acessada por criança somente quando acompanhada do pai ou mãe. Mas houve cuidado na compra dos brinquedos, observando-se seu atendimento à normatização da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). Os moradores valorizaram, ainda, segundo Paulo Mujano, a compra de modelos lúdicos, com desafios e estímulos ao desenvolvimento motor da criança.

Manutenção e uso do playground conforme norma técnica

A norma ABNT NBR 16.071/2012 oferece um bom parâmetro para os síndicos fazerem a gestão da área do playground, já que seu escopo envolve requisitos de segurança dos brinquedos, dos pisos (que devem ser absorventes de impacto), de métodos de ensaio, projetos (observando- se a distância segura entre os equipamentos e áreas ou objetos próximos), instalação, inspeção, manutenção e utilização.

Entretanto, condomínios mais novos, que deveriam cumprir com essas orientações, têm sido entregues pelas construtoras com falhas de projeto, de instalação, pisos e brinquedos de segunda linha. O consultor da área de riscos Carlos Alberto dos Santos exemplifica a situação acima com aquela encontrada no playground de um empreendimento implantado há apenas dois anos, na zona Oeste de São Paulo. Seus equipamentos são feitos de material misto, mesclando madeira, eucalipto, placas ou tubos de metal, e polietileno.

- Miniparque infantil (O equipamento dispõe de uma rampa para escalada, degraus, túnel e um escorregador em polietileno) – Problemas encontrados: Arrancamento de uma base de apoio na rampa de escalada; parafusos soltos; apodrecimento da madeira nos degraus, nas estruturas de sustentação e nas ripas do piso, que está ainda com afundamento. Presença do fungo “orelha de pau” nas madeiras;

- Gangorra – Problemas encontrados: Presença do fungo “orelha de pau”, indicativo de apodrecimento da madeira, a exemplo do eixo que sustenta os assentos. Estes também estão apodrecidos e o metal de fixação da gangorra enferrujado. Pinturas descascadas formam lâminas e podem machucar, assim como parafusos sem proteção;

- Gira-gira – Problemas encontrados: Pinturas descascadas, corrosão nas soldas e nos parafusos, além de desalinhamento dos brinquedos;

- Escorregador – Problemas encontrados: Presença de farpas no madeiramento de sustentação e do fungo “orelha de pau”. A estrutura apresenta instabilidade.

O consultor Carlos Alberto dos Santos chama a atenção dos síndicos para exigirem o atendimento à ABNT NBR 16.071/2012 e, no caso da manutenção, orientarem a equipe responsável pelo cuidado com a área. Entre as principais determinações da norma técnica, ele destaca que:

- Deve haver cuidado quanto aos materiais que compõem os brinquedos, pela facilidade de aquecimento em sua exposição ao sol. Alguns materiais utilizados em superfícies de contato com a pele podem atingir facilmente a temperatura de 40 °C e machucar as crianças;

- Todos os componentes, partes e peças devem ser projetados de forma que a chuva possa escorrer naturalmente, evitando acúmulo de água. Eles devem ainda estar protegidos contra a oxidação;

- Os metais expostos ao contato com o usuário devem estar protegidos por um revestimento atóxico;

- As peças de plástico não podem apresentar trincas ou rachaduras;

- Se, durante a manutenção, for difícil determinar o momento em que o material se torna inadequado para uso, o brinquedo deverá ter uma indicação do fabricante quanto ao período adequado para substituição da peça;

- As dimensões e o grau de dificuldade dos equipamentos devem ser adequados aos usuários ou à faixa etária a que estão destinados. Portanto, é preciso haver esta comunicação e sinalização da parte do condomínio;

- Outra comunicação de responsabilidade do gestor é a instalação de placas com as regras de uso estabelecidas pelo Regulamento Interno; e,

- É obrigatório o acompanhamento do menor que utiliza o playground, independente do seu estado de conservação. Além disso, síndicos, pais e demais responsáveis devem estar atentos ao local onde estão instalados os equipamentos. Se próximos de muros, de desníveis no solo, arbustos, espelhos d’água e chafariz, o cuidado deverá ser redobrado.

O consultor observa que os ambientes, de forma geral, encontram-se “muito largados e as crianças soltas”. Hora, portanto, de ligar o sinal de alerta.

MADEIRA DE “SEGUNDA-LINHA” - Esta casinha apresenta madeira apodrecida e fungo “orelha de pau”. O brinquedo faz parte do playground de prédio entregue no final de 2015, na zona Sul de São Paulo. Seu uso está vetado. Todos os demais brinquedos já foram retirados pela síndica Janaína Persike, por apodrecimento e riscos que oferecem às crianças. Segundo ela, o próprio fabricante a informou que foram solicitados pela construtora brinquedos de “segunda linha”. Ou seja, a parte da madeira não recebeu tratamento adequado para suportar os efeitos das intempéries (sol, chuva e vento) e apodreceu com pouco tempo de uso.


Matéria publicada na edição - 238 - setembro/2018 da Revista Direcional Condomínios

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