Vigilância e a busca pelo “risco zero” nos condomínios

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O dia 14 de junho passado ficou marcado pela tragédia do edifício residencial Grenfell Tower, em Londres, atingido por um incêndio que matou 79 pessoas.

Entre as causas que acentuaram a propagação do fogo e as dimensões das perdas humanas está a utilização de revestimentos inflamáveis na fachada do prédio de 24 andares e 120 apartamentos. Investigações preliminares apontam que inspeções periódicas anteriores teriam ignorado as irregularidades.

No Brasil e, em especial, no Estado de São Paulo, vigora um complexo escopo de leis e normas de prevenção e combate ao fogo nas edificações, herança dos traumas causados por grandes incêndios nos anos 70 e 80 na Capital, como dos edifícios Andraus (16 mortos), Joelma (188 mortos) e Grande Avenida (17 mortos).

A dica que gestores e especialistas dão para os colegas síndicos evitarem riscos de uma nova tragédia é não apenas ter o AVCB (Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros) como guia para regularizar as instalações, como também adotar uma vigilância permanente sobre a manutenção e as vistorias obrigatórias dos equipamentos. No radar dos gestores, devem figurar tanto os componentes das redes elétricas e de gás quanto de combate ao fogo, da luz de emergência e sinalização, além da formação e treinamento de Brigada de Incêndio.

“É ótimo ter o AVCB, um certificado, mas temos que ir além disso e estar atentos a riscos presentes em outras instalações e que possam causar incêndio”, afirma a síndica Rosana Nichio, que está providenciando a renovação do AVCB do prédio onde mora e é gestora há 11 anos. Situado no Alto de Santana, zona Norte de São Paulo, o Condomínio Edifício Siena Tower tem 18 anos, 12 andares e 24 unidades e já passou por inúmeras adaptações, no sentido de promover atualizações em relação ao aperfeiçoamento das normas. “Na renovação anterior, substituímos toda sinalização por placas luminescentes e agora tivemos que trocá-las novamente, porque a norma passou a exigir a identificação do fabricante”, ilustra a gestora.

Dois outros aspectos chamaram atenção da síndica: pelo fato de o condomínio estar com portaria virtual há um ano, o Corpo de Bombeiros exigiu alarmes em todo prédio, detectores de fumaças nos doze andares e automatização da pressurização das escadas. De outro modo, durante um treinamento da Brigada, foi identificado um ponto de ferrugem no abrigo de gás, problema já sanado. “Temos que fazer constantemente uma vistoria, porque a tendência é a de se buscar risco zero”, observa Rosana.

ADEQUAÇÕES

O processo de adequação é trabalhoso, porque cada edificação deve cumprir com leis e normas conforme sua época de construção. Por exemplo, no Condomínio Edifício Boulevard, que se encontra em processo de regularização do AVCB, o síndico Paulo Mujano terá que instalar sistema de hidrante embutido nas paredes dos halls de cada andar. Mas como a escada está diretamente ligada aos pavimentos, tipo “caracol”, não há como providenciar portas corta-fogo. Conforme exigência do projeto aprovado pelos bombeiros, somente duas delas terão que ser instaladas no subsolo e outra readequada no térreo.

Construído em 1957, com vinte unidades e dez andares, próximo à Avenida Paulista, o Boulevard nunca teve AVCB. Em outros dois residenciais em que atua como síndico profissional, Paulo Mujano também se depara com necessidade de adequações. “São realidades distintas, mas este é um tema extremamente complexo do ponto de vista do convencimento dos moradores. Não há empecilho técnico para o AVCB, mas resistência nos condomínios”, conclui Mujano.

RISCOS NA IMPRUDÊNCIA DE MORADORES

Mesmo que o síndico mantenha rigor na manutenção das instalações e equipamentos, situações de incêndio podem acontecer a qualquer momento mediante a distração ou imprudência dos moradores. Aqui estão dois flagrantes: uma moradora de um condomínio compartilhou em rede social a esquadria de uma janela de seu apartamento queimada por bituca de cigarro lançada de outra unidade. O síndico local lançou comunicado advertindo a todos para o perigo desse tipo de atitude, lembrando-lhes ainda das penalizações previstas nas normas internas. A outra imagem mostra fachada atingida por fogo que destruiu apartamento, depois que moradora saiu do local e deixou o celular carregando.

 

Matéria publicada na edição - 225 de julho/2017 da Revista Direcional Condomínios

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