Água: Por que os condomínios devem manter o regime de economia

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A atual disponibilidade hídrica da Região Metropolitana de São Paulo, bem como as medidas de economia adotadas pelos domicílios, especialmente condomínios, abrandam o cenário da crise d’água em 2016. Porém, a Sabesp apertou a política tarifária, com intuito de forçar o consumo racional. Saiba por que manter a vigília.

Diariamente a concessionária pública Sabesp divulga em seu site o nível de reserva de água potável disponível na Região Metropolitana de São Paulo (RMSP), especialmente no Cantareira. Esse é um dos maiores entre os seis sistemas existentes na RMSP e respondia pelo abastecimento de 9 milhões de pessoas antes de quase entrar em colapso entre o final de 2014 e princípios de 2015. A crise e o medo da secura definitiva das torneiras desencadearam uma vigília permanente na população sobre o vai-e-vem dessas reservas, os índices pluviométricos e o consumo. Os condomínios fizeram sua parte, o que, aliado a outros fatores positivos que surgiram ao longo de 2015, como precipitações acima da média, ajudaram a elevar o saldo para o positivo.

No dia 20 de janeiro passado, a recomposição do volume útil do Cantareira atingiu 12,5% e do estoque total chegou a 41,8%, bem acima dos 8,8% registrados em novembro de 2014. Nesta época a água era extraída do chamado volume morto, que fica abaixo do nível de captação e precisa ser bombeado. O volume morto (ou reserva técnica) foi utilizado durante 18 meses e especialistas estimam em quatro anos o tempo necessário para recuperação total do sistema se mantidas as condições atuais. No fechamento de 2015, a Sabesp informa que os seis sistemas que atendem a Região Metropolitana registraram aumento de 133% no estoque de água em comparação com o ano anterior. Em nota divulgada em janeiro pelo superintendente de Produção e Água para a RMSP, Marco Antonio Lopez Barros, a Sabesp solicita autorização junto aos órgãos reguladores (Departamento de Águas e Energia Elétrica do Estado/DAEE e Agência Nacional de Águas/ANA) para aumentar a captação do Cantareira, que caiu para 60% em 2015 em relação aos índices pré-crise.

BÔNUS E MULTAS: NOVA MÉDIA DE CÁLCULO

A notícia ruim é que o consumidor freou a economia na medida em que as chuvas aumentaram em 2015. Assim, os bônus concedidos pela companhia caíram gradativamente desde outubro passado em relação aos meses anteriores, enquanto o percentual de gastões subiu paulatinamente. Além disso, a Sabesp não informara até janeiro como ficará sua política de redução de pressão na rede em 2016, ano que a companhia considera como de “transição”; a estratégia diminuiu em 50% a captação no Cantareira durante a crise, enquanto o programa de descontos (bônus) gerou redução em torno de 20%, informa a empresa.

Portanto, o excedente de chuva não permite baixar a guarda. Mesmo porque, o cálculo feito pela concessionária para dar descontos (por economia) ou aplicar multas (por excesso de consumo) mudou a partir deste mês de fevereiro. Até o último dia 31, valia a média apurada entre fevereiro de 2013 e janeiro de 2014. Agora, a empresa irá considerar a média gasta nos meses em que os domicílios já estavam economizando, entre 2014 e 2015. Ou seja, será preciso fechar ainda mais as torneiras para manter o benefício, multiplicando-se a antiga média por 0,78. É sobre esse novo índice que o consumidor terá descontos entre 10% e 30% na conta, se baixar o consumo entre 10% e 20%. O mesmo indicador valerá para a aplicação das multas.

BEM INESGOTÁVEL?

A necessidade de um consumo mais racional é para sempre, acredita o engenheiro Dirceu D’Alkmin Telles, doutor em Engenharia Hidráulica pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), vice-presidente do Conselho Reitor da Fundação de Apoio à Tecnologia (Fundação FAT) e um dos autores de um Plano Diretor de Aproveitamento dos Recursos Hídricos apresentado ao Governo do Estado em 2013.

Três são as principais razões para isso: (1) São Paulo nasceu e cresceu sobre rios, tamponando ou canalizando grande parte deles, e impermeabilizando ampla superfície, ao mesmo tempo em que registrou aumento da população e do consumo per capita; (2) o sistema de armazenamento, captação e distribuição é antigo, apresenta perdas de até 40% da água tratada, contra a média entre 6% e 8% nos países desenvolvidos; e (3) o consumidor aposta no mito da água abundante, inesgotável, especialmente porque o Brasil possui 12% da reserva doce do mundo (afora as águas subterrâneas).

Existem duas principais soluções a esse contexto, além das obras em andamento, aponta Dirceu: (A) Manutenção, modernização e novo arranjo do sistema; e (B) lançamento de campanha ostensiva de conscientização dos consumidores, para que incorporem hábitos comedidos. “No começo da crise o pessoal começou a desligar o chuveiro, mas agora já voltou a gastar”, ilustra, ponderando, no entanto, que as perdas na rede são mais graves que os abusos dos clientes.

Para os condomínios, a dica é investir na economia, incluindo a medição individualizada do consumo e instalação de dispositivos de redução da vazão em torneiras, chuveiros e descargas. Em sua opinião, buscar fontes alternativas como captação da água da chuva, poços artesianos e drenagem do lençol freático equivaleria a “chupar a laranja no pé”. Ou seja, essa água retida no condomínio deixaria de compor o balanço hídrico e, em médio e longo prazo, a situação poderia impactar negativamente sobre as represas.

“MINIMIZAR DESPERDÍCIOS”

A engenheira civil Sibylle Muller, especializada em reaproveitamento de água cinza e reuso, entre outras soluções, discorda da análise final do colega Dirceu. Segundo ela, “nem sempre a água da chuva infiltra no subsolo, por causa da impermeabilização das superfícies”. Vale então aos condomínios aproveitarem algumas alternativas, desde que viáveis técnica e financeiramente, e destinadas ao uso correto. Sibylle argumenta que a “folga” a ser experimentada em 2016 não significa fim da crise. “Ela está aí, pois não adequamos o potencial de reserva dos mananciais às demandas das cidades.” Cabe ao Estado planejar melhor a gestão desses recursos, mas a colaboração dos consumidores também é importante, considera. Por exemplo, Sibylle mudou-se recentemente de uma casa para um apartamento, onde percebeu in loco o efeito da pressão exercida pelas instalações do prédio sobre a vazão dos chuveiros (responsáveis, em geral, por 50% do gasto de uma unidade) e torneiras. “É preciso minimizar os desperdícios, como combater vazamentos internos, modificar hábitos, instalar equipamentos economizadores, entre outros. Isso terá impacto sobre o planejamento público, porque reduzirá o volume total da demanda, em torno de 20%.”

Nesse sentido, Sibylle defende que o síndico assuma “o papel educativo pela redução do consumo d’água”. “Precisamos começar a ter essa consciência”, reforça. As opções são abundantes, desde que criteriosas, e vão desde captar a água da chuva para usos que não comprometam a saúde (como rega de jardins e limpeza de áreas comuns) a sistemas mais sofisticados, como tratamento de água do lençol freático (de mina) pelo próprio condomínio (Leia sobre o assunto na Direcional Condomínios, edição de abril de 2015, no link http://bit.ly/1Nxss19). Em tempo, a Sabesp desenvolve em condomínios o Programa Guardião das Águas, que objetiva capacitar zeladores para implantarem medidas de economia (Mais informações pelo telefone 0800 011 9911).

Matéria publicada na edição - 209 - fev/2016 da Revista Direcional Condomínios

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