Medição individualizada da água, um benefício coletivo aos condomínios

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A individualização da leitura do consumo da água nos apartamentos ganha força mediante o acirramento da crise hídrica em São Paulo e demais regiões metropolitanas do País. “Somente quando a pessoa visualiza o quanto ela precisa baixar o consumo é que efetivamente começa a economizar”, argumenta Milene Abla Scala, arquiteta e coordenadora do grupo de trabalho de sustentabilidade da Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura (Asbea). A entidade vem defendendo que o município torne obrigatória a individualização. Atualmente, a Lei Municipal 14.018/05, regulada pelo Decreto 47.731/06, prevê apenas que as novas edificações sejam projetadas para receber soluções de uso mais racional da água, entre elas, a “instalação de hidrômetro para medição individualizada por unidade habitacional”.

Preocupada com a sustentabilidade e o futuro da vida nas grandes cidades, Milene Scala vê o sistema como recurso de benefício coletivo, reconhecendo, porém, que essa noção “ainda pouco faz parte de nossa realidade”. A mesma posição é expressa pelo advogado e especialista em condomínios, Cristiano De Souza Oliveira. “A individualização representa instrumento de gestão individual do consumo, mas que deve ser vista como benéfica não para economizar dinheiro, e sim como fruto da conscientização de todos visando ao uso racional da água”, acredita.

Nesse sentido, Cristiano propõe que os condomínios busquem quórum unânime na aprovação de seus respectivos projetos. “A doutrina aceita outro entendimento, essa é uma visão legalista de minha parte, mas seria ideal para sedimentar a conscientização, ao colocar em discussão quais benefícios coletivos o condomínio pretende alcançar.”

Para o ex-síndico Oscar Costa Filho, do Condomínio Spazio Club, localizado no Jaguaré, Zona Oeste de São Paulo, “individualizar não é só uma questão de pagar menos, mas de pagar o justo e ter mais consciência do consumo”. “Isso nos dá um parâmetro do que se gasta, assim como acontece com a energia elétrica.” Oscar deixou o cargo pouco antes da assembleia de condôminos (em 14/5) que concordou com a individualização da água no empreendimento de três torres e 334 unidades. O ex-síndico desligou-se por motivos pessoais, porém, ficou na torcida pela aprovação. Ele lembra que o local tem histórico de preocupação com a racionalização, como as vistorias realizadas nas unidades em anos recentes pela equipe de manutenção, em busca de vazamentos nos chuveiros, torneiras e caixas acopladas.

DESAFIOS

Para o engenheiro civil Tomas Gouveia, que já trabalhou em grandes construtoras, retrofit de prédios antigos e hoje atua na área de perícia, a individualização enfrenta dois diferentes desafios no Brasil: entre os novos empreendimentos, ele identifica “resistência cultural” por parte das pessoas, uma vez que os edifícios estão preparados para receber o sistema. Já naqueles com pelo menos dez anos de construção, predominam de fato alguns entraves estruturais, além do custo, da dificuldade de localizar os projetos originais da edificação e da resistência dos moradores aceitarem pessoas estranhas trabalhando dentro de casa para readequar as instalações. “A individualização no segmento elétrico sempre existiu e isso nunca foi questionado pelos condôminos. Quando entra no gás e na água, as pessoas têm mais restrição cultural que técnica, pois no caso dos edifícios novos, eles apresentam a opção de individualização e seu custo é bem menor do que fazê-lo num prédio antigo.”

A PERSISTÊNCIA DE UM CONDOMÍNIO

O Condomínio Celebration, por exemplo, foi entregue no final de 2011 pronto para receber os medidores individuais para leitura da água. Ele é um complexo de quatro torres residenciais, 400 unidades com varandas gourmet e ampla área de lazer, implantado na região da Barra Funda, em São Paulo. De acordo com a síndica Cecília Helena Silva, há apenas uma prumada por apartamento, o que facilita bastante o processo.

Mas Cecília assumiu o cargo em 2013 em meio a uma crise: a empresa contratada para instalar os hidrômetros não cumpriu com o contrato, mesmo que o condomínio tenha quitado todos os equipamentos (medidores e rádios-frequência). Não houve acordo, a pendência gerou ação judicial do condomínio contra o prestador, e os moradores insistiram em continuar com o processo de individualização, mesmo precisando pagar novamente pelos aparelhos, agora com o respaldo de outra empresa.

“O sistema está implantado e funcionando direitinho desde fevereiro deste ano”, afirma Cecília, aliviada. Segundo ela, desde então houve necessidade de alguns ajustes na transmissão dos dados, no entanto, com quatro estações de leitura em operação, cada unidade vem pagando exatamente aquilo que consome. “Insistimos na individualização porque é o correto, cada um tem que ter responsabilidade pelo que consome, é uma questão de democracia e justiça.”

A síndica exemplifica: “Temos aqui unidade que consome 5 m3 por mês, outras chegam a 40 m3. Cada morador possui um hábito, ele que pague pelo que gasta”. A expectativa agora é que a nova sistemática contribua para conscientizar os condôminos da necessidade de mudar seu comportamento de consumo. Os reservatórios do Celebration armazenam 736 m3 de água, mas o volume é suficiente apenas para dois dias e meio de abastecimento em caso de racionamento severo, diz.

Essa é mais uma das razões pelas quais a síndica defende a individualização, recomendando aos seus colegas síndicos, ainda em busca de projetos e orçamentos, que tomem algumas precauções: procurar conhecer bem as empresas, visitar seus clientes, buscar a opinião de várias pessoas de um mesmo condomínio já individualizado, consultar os sites do Tribunal de Justiça e de apoio aos consumidores, fechar um contrato seguro e somente quitar os serviços depois de concluídos.

 

(Por Rosali Figueiredo, texto e fotos)

Matéria publicada na edição - 202 de jun/2015 da Revista Direcional Condomínios

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