Fontes alternativas de água garantem lavagem das fachadas antes da pintura

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A seca nos mananciais de água em São Paulo coloca a sustentabilidade à prova e gera dúvidas entre os síndicos. Seria possível dispensar a lavagem das fachadas antes da pintura? Caso não, como garantir o serviço sem pagar multas à Sabesp ou evitar tornar-se o vilão do consumo diante dos vizinhos? A legislação paulistana (Lei 10.518/1988) obriga à pintura ou lavagem das fachadas das edificações a cada cinco anos, deixando os síndicos em uma situação desconfortável, um verdadeiro dilema.

As empresas do setor têm procurado tranquilizar esses gestores, pois estão buscando alternativas para lavar as fachadas, já que não é possível garantir a qualidade de uma pintura sem limpeza da superfície. “Ao repintar, é preciso eliminar todas as sujeiras. Por exemplo, a tinta sobre o pó deixa uma aparência texturizada, a parede impede a aderência e, no caso do mofo, se passar a tinta por cima, a tendência é que ele apareça novamente ou provoque desplacamento”, explica a química Gisele Bonfim, gerente técnica e da divisão de assuntos ambientais da Abrafati (Associação Brasileira dos Fabricantes de Tintas).

Gisele considera louvável a preocupação de longo prazo demonstrada pelos condomínios com o meio ambiente, mas a iniciativa de simplesmente adiar a pintura da fachada para não comprometer as reservas de água da cidade pode trazer outros problemas. É possível contratar um serviço sustentável, com água da chuva ou reuso, propõe. O que não se pode, completa, é postergar um serviço essencial à manutenção e valorização das edificações. “A razão primordial da pintura não é estética, mas a de proteger a alvenaria, evitando que ela degrade.”

O empresário Thiago Vulcano afirma que sua empresa implantou cisternas para captação da chuva e irá ampliar os reservatórios para água de reuso ou proveniente de poço artesiano. Assim como muitos de seus pares, Thiago tem fornecido a água para o hidrojateamento nos contratos de limpeza e pintura. De qualquer maneira, ele observa que o processo requer pouca água, entre 5% a 10% do que seria o consumo mensal de um condomínio.

Também o empresário João Batista da Silva leva aos clientes suas reservas d’água, inicialmente captadas da chuva que escorre dos telhados da sede da empresa. “Em uma única chuva, de média duração, chegamos a coletar milhares de litros d’água, que levamos em utilitários próprios para execução da limpeza de prédios pequenos. Para as obras grandes, a empresa vem contratando água de reuso junto à Sabesp. Ela é transportada para o condomínio em caminhão pipa (dez metros cúbicos), que abastece caixas tipo tanque, as quais disponibilizamos. Em geral, dez metros cúbicos são suficientes para o hidrojateamento das fachadas de um edifício de tamanho médio (15 a 20 andares)”, esclarece João Batista. No momento, ele mantém três cisternas de água de reuso no Condomínio Edifício Santorini, localizado no Campo Belo, de uma torre só de 14 andares, onde está prevista a utilização de 10 mil litros de água durante o trabalho de hidrojateamento das superfícies cobertas por tinta e revestimento.

 

LIMPAR É PRECISO

Especialistas confirmam que pintura sem limpeza prévia não garante a qualidade dos serviços. “Antes da recuperação e pintura das fachadas, é de suma importância executar uma limpeza por hidrojateamento, com aplicação de solução para eliminar as impurezas, como a poluição e a proliferação de microorganismos (fungos, bolores e mofos). Estes causam manchas e deterioração dos materiais”, completa João Batista. A técnica é utilizada para revestimentos em tinta, fulget, cerâmicas, pastilhas, concreto, quartzo e granito. O síndico João Lang, do Condomínio Green Village, em Cidade Dutra, zona Sul de São Paulo, está orçando a pintura das quatro torres do empreendimento, com a condição de que a água seja fornecida pelo prestador de serviço. A ideia é começar os trabalhos ao final deste semestre.

Segundo Gisele Bonfim, a tinta demanda aderência e deve ser espalhada de maneira uniforme sobre a superfície, “formando uma espécie de película”. Paredes que apresentam a aparência conhecida como “olho de peixe” não foram limpas adequadamente, afirma. É necessário cuidado redobrado àquelas com menor incidência de sol, mais propícias à formação de algas, fungo e bolor. Neste caso, o prestador de serviço deve usar antes uma solução de hipoclorito de sódio, na proporção de 1 para 1, depois lavar a parede com água limpa. Por outro lado, paredes mais suscetíveis ao vento apresentam maior concentração de fuligem e poeira.

Para os especialistas Osmar Becere, técnico do IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas), e Carlos Carbone, engenheiro e mestre em Engenharia Civil pela Escola Politécnica da USP, o hidrojateamento facilita ainda a identificação de fissuras, bolhas e anomalias que estavam encobertas pela sujeira, para que essas sejam corrigidas antes da pintura e/ou texturização. Porém, as imperfeições que já eram visíveis devem ser recuperadas previamente ao processo de limpeza, esclarecem.

COMO FAZER

O hidrojateamento não pode ser feito sob muita pressão. Segundo Becere e Carbone, “normalmente utiliza-se pressão máxima de 1000 psi, combinada com a utilização de sabões neutros. A periodicidade da lavagem depende do grau de exposição a que está sujeita a fachada e do tipo de acabamento do revestimento, capaz de reter mais ou menos sujidades. No caso das texturas acrílicas, quando houver necessidade de reparar alguma área danificada, recomenda-se: demarcar a região, protegendo o entorno com um filme plástico ou papel; remover a textura degradada com auxílio de ferramentas apropriadas; limpar o substrato; e aplicar a nova textura de acordo com as recomendações do fabricante do produto.”

Outra dica importante é dada pelo empresário Thiago Vulcano: depois da lavagem, aconselha-se uma pausa para a cura e a secagem, “seguindo as orientações dos fabricantes”. Segundo ele, em condomínio de torre única e cerca de dez andares, por exemplo, o período de lavagem oscila entre uma a duas semanas, mesmo tempo necessário para o tratamento posterior de fissuras que se tornam aparentes. Intervalos semelhantes são exigidos para as duas etapas posteriores: o uso de fundos preparadores e a aplicação da tinta.

SUPERFÍCIES ESPECIAIS

Edifícios com amplas superfícies revestidas por cerâmica, vidro e alumínio se destacam na paisagem urbana, embelezam e valorizam os imóveis, mas demandam dos condomínios tratamentos mais cuidadosos de limpeza. Thiago Vulcano diz que algumas pastilhas precisam ser rejuntadas novamente depois da lavagem; “tudo depende de seu tamanho e da forma como foram assentadas”.

Já para os vidros, o empresário Gilmar Paes de Lira sugere aplicar detergente neutro biodegradável, exceto quando eles estiverem irremediavelmente manchados. A solução para este problema é recorrer a um tira-manchas ácido (vetado para fachadas espelhadas), tomando-se o cuidado para evitar o respingo e que escorra sobre o rejunte (o que danificaria). Há uma alternativa, o uso de pasta não ácida, com apoio de uma máquina que fricciona a região, processo semelhante à cristalização da lataria dos automóveis. Por fim, para os caixilhos de alumínio, utiliza-se mop, rodinhos, panos, bucha e limpeza a seco, convencional.

Matéria publicada na edição - 201 de mai/2015 da Revista Direcional Condomínios

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