Economia da água em condomínios através do reuso

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Uma das possibilidades de economizar água está no seu reaproveitamento, especialmente da pluvial. A engenheira civil Andrea Françoise Sanches de Sousa, autora de um estudo de mestrado defendido na USP sobre o reuso no Condomínio Residencial Valville I, em Santana do Parnaíba, produziu um texto para os síndicos a pedido da Direcional, apontando benefícios, mas também os procedimentos necessários. Confiram aqui o texto feito exclusivamente pela engenheira para a Revista Direcional Condomínios.

Para promover o equilíbrio entre a demanda e a oferta de água e garantir a sustentabilidade econômica e social, medidas e sistemas alternativos devem ser desenvolvidos e aplicados para a eficiente gestão dos recursos hídricos e diminuição da poluição. Dentre estas medidas podemos apontar, prioritariamente, a redução de perdas, a utilização de tecnologias economizadoras de água, a minimização na geração de efluentes e também a medição individualizada em condomínios e, complementarmente, o reuso de água ou o aproveitamento de águas pluviais, cujos resultados apontam a possibilidade de redução de até 30% no consumo de água.

A conservação da água pode ser definida como qualquer ação que:

• reduza a quantidade de água extraída de fontes de suprimento;

• reduza o consumo de água;

• reduza o desperdício de água;

• reduza as perdas (físicas e não contabilizadas)

• aumente a eficiência do uso de água; ou, ainda,

• aumente a reciclagem e o reuso de água.

As práticas relacionadas à conservação de água podem ser reforçadas quando da formação dos profissionais de engenharia e pelos empreendedores imobiliários que devem ressaltar que o diferencial do preço de venda é compensado durante certo período com a diminuição dos custos condominiais, já que a água é o segundo item em importância, perdendo apenas para a mão-de-obra.

Além disso, o conceito de “substituição de fontes” se mostra como a alternativa mais plausível para satisfazer a demandas menos restritivas, liberando as águas de melhor qualidade para usos mais nobres, como o abastecimento doméstico.

Uma das medidas não-convencionais para conservação de água é o aproveitamento de água de chuva para uso não potável, que deve ser precidada de medidas para a redução do consumo. Para promover a normatização da utilização de águas de chuva, está em vigor desde setembro de 2007, a Norma Brasileira Regulamentadora (NBR) 15527 da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) - “Água de chuva - Aproveitamento de coberturas em áreas urbanas para fins não potáveis – Requisitos”.

Em qualquer programa de conservação do uso da água, deve-se priorizar o uso racional, ou seja, reduzir desperdícios e utilizar equipamentos de menor consumo de água, para depois  verificar o potencial de substituição de fontes, seja por meio do reuso ou pelo aproveitamento de águas pluviais, como um complemento para uma boa gestão dos recursos hídricos.

São apresentadas a seguir algumas considerações para a redução do desperdício:

- Correção de vazamentos

- Redução de perdas, através de manutenções adequadas

- Realização de campanhas de sensibilização e educativas, podendo abordar tópicos como:

• o objetivo da conservação da água;

• as vantagens econômicas e ambientais da redução de volume de água e de esgoto tratado;

• a redução de gastos com as contas de água e de energia;

• a possibilidade de atendimento a um maior número de usuários.

Outro instrumento de conservação seria a substituição de componentes convencionais por economizadores.  A vantagem econômica da adequação do sistema depende das condições locais. Por essa razão, antes da implementação dessa ação, recomenda-se uma avaliação econômica das atividades necessárias para a alteração do sistema que têm por objetivo reduzir o consumo de água. Assim, deve-se verificar, com antecedência, os componentes a serem especificados, seus respectivos custos, inclusive de mão-de-obra e, ainda, a necessidade de obras civis.

Deve-se considerar que os equipamentos economizadores são os mais adequados para o uso público ou coletivo.

Dessa forma, em instalações existentes recomenda-se a substituição de equipamentos convencionais e em novas edificações o projeto já deve prever exclusivamente aqueles mais apropriados para o uso racional da água.

Alguns exemplos de equipamentos economizadores são:

· Torneiras: Hidromecânicas (temporização); com sensor de presença; eletrônicas embutidas (parede); acionamento no pé (evitando contaminação); arejadores (regulador e abrandador do fluxo de água)

· Dispositivos de Descargas para Mictórios: válvula de acionamento hidromecânico; válvula de acionamento por sensor de presença; válvula temporizada

· Chuveiros e duchas: registro regulador; válvula de fechamento automático

· Bacias sanitárias: com caixa acoplada, válvula de descarga de ciclo seletivo, válvula de descarga ciclo fixo; válvula de descarga de duplo acionamento, válvula de descarga por sensor

EXEMPLO 1:
Redução de Consumo de Água com Substituição de Bacias Sanitárias (6 lpf) e Aparelhos em Escola Municipal

a– Diagnóstico

O exemplo em questão trata de medições de consumo de água nos banheiros masculino e feminino da escola. A

medição foi realizada com CLP (Controlador Lógico Programável) obtendo-se o consumo de água por utilização dos seguintes

produtos:

• Bacia sanitária;

• Válvula para mictório; e

• Torneira para mictório.

Após os levantamentos iniciais os equipamentos foram substituídos por equipamentos destinados à economia de

água, obtendo-se a economia total de água.

b– Plano de intervenção

b1 - Primeira ação: instalação de sistemas de medição em sanitários piloto.

b2 - Segunda ação: substituição dos produtos abaixo relacionados:

• 9 torneiras convencionais por torneiras de fechamento automático;

• 10 bacias sanitárias por bacias 6 lpf (litros por função);

• 10 válvulas de descarga antiga por novas com acabamento antivandalismo; e

• 3 registros de pressão por válvulas para mictório com fechamento automático.

c– Avaliação

EXEMPLO 2:
Implantação de Programa de Uso Racional de Água em Universidade no Estado de São Paulo

a- Características da edificação

Área de terreno: 2.447.097 m2.

Número de edifícios: 228.

Unidades de ensino: 20.

População: superior a 30.000 pessoas por dia.

Área construída (2001): 465.926 m2.

b- Ações propostas e objetivos

• Implantar medidas que induzam ao uso racional da água no campus.

• Avaliar as medidas a serem adotadas para reduzir o volume consumido nas Unidades.

• Analisar as tecnologias economizadoras para usos específicos.

• Implantar sistema de gestão dos sistemas prediais.

• Conscientizar os usuários sobre a importância da conservação desse insumo.

c- Plano de Intervenção da fase 1 (implantada até 2002)

• Levantamento cadastral de todos os pontos de consumo de água.

• Detecção e conserto de vazamentos.

• Implantação de sistema de telemedição.

c1- Primeira ação: Solução das patologias

• Número de pontos cadastrados: 11.483 pontos de consumo.

• Número de pontos de consumo com patologia: 1.263 pontos de consumo.

c2- Segunda ação: Instalação de dispositivos economizadores

• Número de componentes economizadores instalados: 2.409 componentes.

c3- Implantação do sistema de medição remota

• Número de hidrômetros instalados: 113 hidrômetros eletrônicos.

d- Avaliação do resultado da primeira fase

Para a avaliação dos resultados foi considerado:

• Número de usuários entrevistados: 1.201 pessoas.

• Número de pontos levantados para analisar as tecnologias para uso específico da água: 4.676 pontos.

Os resultados globais apresentados foram:

• Consumo médio antes do programa: 95.392 m3/mês.

• Consumo médio após o programa: 78.851,43 m3/mês.

A implantação do programa no campus até 2002 envolveu 72 edificações com redução do consumo de água de

24% e uma economia mensal apurada de R$ 240.000,00.

REUSO DE ÁGUA

O reuso de água é promovido pela natureza há milhões de anos. Por meio do ciclo hidrológico, vem reciclando e reutilizando a água com muita eficiência.

Conforme estudo realizado por Sousa (2008) conclui-se que a prática de reúso de água para fins não potáveis é viável em condomínios residenciais, contanto que sejam considerados os perigos e monitorados os pontos críticos na sua implantação.

Por não existirem normas ou legislação brasileira com detalhamento suficiente de diretrizes para programa de reuso, destacando-se a ausência de limites de qualidade para a água de reuso, principalmente com relação aos aspectos de saúde pública, recomenda-se a adoção de um método preventivo de gerenciamento dos perigos inerentes a esta prática. Verificou-se neste mesmo estudo que em um sistema de reuso de água, os pontos críticos estão basicamente associados aos riscos de contaminação microbiológica dos usuários, operários e operadores; aos impactos ambientais considerando os riscos físicos, químicos e biológicos; aos danos materiais como a ocorrência de manchas em louças e pisos e também ao desabastecimento.

Algumas medidas de controle essenciais para minimização destes riscos seriam: a implantação de redes duplas de distribuição de água potável e de água de reuso, onde a adição de corante auxilia na detecção de ligações indevidas, a sinalização e utilização de tubulações e dispositivos hidráulicos com características diferenciadas e também sistemas de monitoramento para a detecção de problemas com a qualidade da água. Outro ponto crítico identificado é o próprio usuário, que deve ser conscientizado e orientado para a boa utilização desta prática, observando sempre os tipos de uso da água permitidos no sistema de reuso implantado.

Referência Bibliográfica

AGÊNCIA NACIONAL DE ÁGUAS; FEDERAÇÃO DAS INDÚSTRIAS DO ESTADO DE SÃO PAULO; SINDICATO DA INDÚSTRIA DA CONSTRUÇÃO. Conservação e reúso da água em edificações. São Paulo, 2005. 151 p.

SOUSA, ANDREA FRANÇOISE SANCHES DE Diretrizes para implantação de sistemas de reúso de água em condomínios residenciais baseadas no método APPCC Análise de perigos e pontos críticos de controle: Estudo de caso Residencial Valville I / A.F.S.de Sousa - ed.rev. – São Paulo, 2008. 176 p.

Sao Paulo, 28 de junho de 2010.