Tríplice Aliança

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Além da inovação tecnológica, a proteção dos condomínios avança também na área comportamental. A ideia é focar no treinamento dos colaboradores e na mudança de postura dos moradores.

A ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA das Empresas de Sistemas Eletrônicos de Segurança (Abese) divulgou recentemente que cerca de 500 mil imóveis no País estão monitorados com o uso de alarmes e câmeras, em um universo de 6 milhões de edificações. O mercado dos equipamentos eletrônicos cresce a taxas médias anuais de 13%, estima a Abese, apontando que sistemas de alarmes, CFTV, controle de acesso, portas e portões automáticos, proteção perimetral, de combate a incêndio, detecção de metais e explosivos, eclusas, rastreamento e identificação por biometria estão entre os mais aplicados.

Mas há novidades que conferem maior sofisticação a esses sistemas, ao integrar informática, internet e telefonia móvel. É o caso do monitoramento que permite ao síndico acompanhar pelo celular, em forma de vídeos, a movimentação de seu prédio, tecnologia já disponível no Brasil. Ou ainda, de um software de gerenciamento de riscos desenvolvido por causa dos atentados registrados contra universidades norte-americanas. Capaz de identificar comportamentos suspeitos, como de serial killers, esse aplicativo detecta, com o auxílio do CFTV, “qualquer ação considerada suspeita ou de risco”, observa o consultor Eduardo Lauande, especialista na área e pós-graduado em Israel.

Esta é uma opção cara e ainda distante da realidade brasileira, comenta Lauande. Na verdade, prossegue o consultor, as soluções em segurança dependem do perfil de cada condomínio, como público, renda, tamanho e localização geográfica, além da articulação dos seus três pilares básicos: recursos materiais, humanos e administrativos (incluindo a gestão das regras de procedimentos). A própria Abese recomenda, em cartilha lançada  neste ano, a adoção de um sistema eletrônico “o mais apropriado possível ao local” e que “o fator humano” esteja preparado; “seja o porteiro para acionar o botão do pânico, seja o profissional lotado na central de monitoramento, o qual recebe os sinais emitidos pelo botão de pânico”.

“O condomínio poderá utilizar câmeras com dispositivos térmicos integrados para detecção de movimento, sensores de abertura de portas, janelas, emissão de gases não letais, mas ainda assim em algum momento precisará de um elemento humano”, comenta Eduardo Lauande. Outro consultor de segurança, José Elias de Godoy, costuma empregar o conceito de “triângulo da segurança em condomínios” para caracterizar uma situação ideal de proteção nas edificações. O modelo envolve a prevenção por meio da segurança física, do treinamento dos funcionários e da conscientização dos condôminos.

Autor do Manual de Segurança em Condomínios (Editora Igal) e de Técnicas de Segurança em Condomínios (Editora Senac), José Elias é Oficial da Polícia Militar do Estado de São Paulo e pós-graduado em gestão de segurança e planejamento empresarial. Segundo ele, a receita básica da segurança inclui “um bom controle de acesso com equipamentos, além de procedimentos que devem ser seguidos à risca por moradores e funcionários”. Neste quesito, prossegue Elias, as principais deficiências encontradas hoje residem na “falta de conhecimento técnico-profissional e, em muitos casos, na ingenuidade destes funcionários, não se esquecendo também de sua autoconfiança em achar que conhecem as pessoas e podem liberar a sua entrada sem consultar os moradores ou o zelador”.

Para o consultor Eduardo Lauande, a adoção de um bom sistema de segurança começa pelo “estudo das fragilidades e deficiências” do condomínio, observando-se os “controles de acessos diversos (veiculares, de população fixa e flutuante)” e as possibilidades de “violação dos perímetros laterais, frontais e de fundos do empreendimento”. Por outro lado, há necessidade de se oferecer “treinamentos comportamentais que assegurem a adequada interatividade dos recursos humanos com os meios materiais”; a “provisão de todos os instrumentos necessários para que os funcionários realizem suas atividades laborais de forma minimamente confortável, possibilitando um alto rendimento”; a “avaliação periódica de processos”; além de “um manual de normas e procedimentos”.

BUNKER

No condomínio em que o administrador Joseph Lawand Junior mora, no bairro do Paraíso, em São Paulo, o entra e sai sem controle de profissionais de telefonia, de entrega de móveis ou de manutenção de eletrodomésticos, está vetado.

Síndico em terceiro mandato, Joseph comenta, bem humorado, que implantou um verdadeiro bunker no local, um edifício de alto padrão, com 38 apartamentos de 400 metros quadrados cada. A chave da segurança é dada por uma sintonia fina entre os equipamentos e os procedimentos adotados pelos seus funcionários e moradores. São 48 câmeras de CFTV, sala protegida para o arquivamento das imagens, duas portarias blindadas, dotadas de telefone fixo, celular, rádio e alarme conectado a uma empresa de monitoramento, viva voz para contato com os moradores, além de eclusas no acesso às guaritas e garagem. Mas isso tudo poderia ser insuficiente se não houvesse o preparo e a firmeza do funcionário para o cumprimento das normas de procedimentos, mesmo se em desacordo a eventuais demandas colocadas pelo morador, destaca Lawand.

O rigor no acesso é uma das principais regras implantadas no condomínio. O ingresso de qualquer prestador de serviço tem que ser previamente comunicado pelo morador à portaria e o profissional somente terá a entrada liberada com a apresentação de documento original de identidade ou carteira funcional da empresa. Mesmo assim, ressalta Joseph, ele será acompanhado por um funcionário durante todo o tempo em que estiver no local. Para os demais trabalhadores, que atuam de forma temporária e prolongada nos apartamentos, o acesso é permitido somente depois do cadastramento. “Não adianta vir um morador e pedir para liberar a entrada de um profissional, porque sem identificação e cadastramento, o porteiro está orientado a não ceder”, diz. “O segredo de tudo é procedimento.

Depois que entrou numa rotina, dificilmente o prédio será assaltado. E os condôminos estão se acostumando, porque têm que seguir as regras que foram aprovadas em assembleia”, afirma o consultor José Elias. No condomínio em que Vernon Pacheco exerce o cargo de chefe de segurança, no bairro de Moema, zona sul de São Paulo, o modelo de proteção inclui controle do perímetro e de acesso por uma boa infraestrutura de equipamentos, articulada ao treinamento periódico dos funcionários. “A maior parte já foi contratada com experiência na área e referências”, observa. Mesmo assim, prossegue Vernon, “há uma atualização constante, porque o crime migra em suas modalidades”. Nesse aspecto, Eduardo Lauande defende uma atenção especial aos profissionais contratados para exercer as funções no controle de acesso, pois devem preencher alguns prérequisitos, como capacidade de verbalização, de memorização visual e auditiva; agilidade de raciocínio lógico; atenção e concentração; interesse por relacionamentos sociais, já que farão atendimento ao público; facilidade para o trabalho em equipe; e desenvoltura para a realização simultânea de muitas tarefas.

“A preocupação com a segurança e a manutenção desta é um processo contínuo”, observa por sua vez o síndico Reinaldo Klepacz, residente em um prédio de apenas nove apartamentos no bairro de Higienópolis, região central de São Paulo. No cargo há oito anos, Klepacz está implantando um programa preventivo, que prevê, inicialmente, o conhecimento e controle da área geográfica do condomínio, com vistas a mapear as deficiências.

Depois serão providenciados os equipamentos e as instalações necessárias. Ao final, haverá o treinamento da equipe de colaboradores, com posterior simulação de ocorrências delituosas.

Segundo o consultor de segurança Nilton Migdal, a simulação, sem agendamento prévio, mantém os funcionários sempre alertas quanto ao rigoroso cumprimento dos procedimentos. Engenheiro civil graduado pela USP e especializado em segurança, com pós-graduação em Israel e em São Paulo, Migdal avalia o padrão de segurança condominial a partir de três análises básicas: físicatecnológica, em que checa as vulnerabilidades, não apenas em termos de ausência e falha dos equipamentos, mas também da estrutura, como muros baixos, por exemplo; de procedimentos, observando a rotina do local, desde o acesso de moradores, visitantes e prestadores de serviços até a forma como é realizada a coleta do lixo; e da checagem dos funcionários, incluindo a visita ao local de moradia.

Após 15 anos de trabalho, Migdal afirma que jamais se deparou com algum condomínio que tivesse procedimentos expressos no papel, ou seja, oficializados e difundidos a todos os moradores e funcionários. Um dos principais desafios dos síndicos e administradores é justamente o de implantar e consolidar essas normas, as quais devem ser constantemente aprimoradas conforme ocorram mudanças no modus operandi do crime, aconselha Migdal.

POSTURAS

Os consultores Eduardo Lauande e José Elias de Godoy sugerem algumas posturas a serem adotadas pelos profissionais que atuam nos condomínios, além de síndicos e moradores. Para os colaboradores, a ideia é manter-se em seu posto de trabalho e evitar deslocar-se para serviços ou atividades particulares (como o atendimento a um morador) durante o expediente.

Atender às normas do condomínio e à sua liderança, seja o zelador, o síndico ou o chefe de segurança. Jamais atender a estranhos deixando o posto de trabalho ou permitindo que tenham contato pessoal com o porteiro ou demais funcionários.

No caso do zelador, orientar sempre os subordinados. Quanto aos faxineiros, exercer sua função de olhos abertos e ouvidos atentos àquilo que ocorre no seu entorno. Se vierem a substituir provisoriamente vigias ou porteiros, atender a  todos os quesitos desta nova função. Preencher sempre e de maneira adequada os relatórios de trabalho. Somente autorizar acesso de pessoas autorizadas pelos moradores e checar todos os ocupantes dos veículos que entram pela garagem.

Finalmente, dar sugestões para a melhoria do padrão de segurança do condomínio. 

Síndico – tenha uma postura de supervisão ativa e periódica, monitorando constantemente as rotinas e as operações adotadas no condomínio. O síndico precisa desempenhar o papel de líder, motivando os colaboradores e, ao mesmo tempo, atuando sobre a conscientização dos moradores, seja por meio de informes e deliberações passadas em assembleia, seja pelo contato diário ou formas convencionais de comunicação (avisos, comunicados, etc.). Mantenha o cadastro atualizado dos moradores, providencie a atualização ou manutenção dos equipamentos, promova o treinamento periódico da equipe e implante e cobre o registro de entrada de pessoas, materiais e veículos.

Moradores – conheçam e cumpram as regras do regulamento interno do condomínio.

Participem das assembleias, façam sugestões e atuem nas comissões que eventualmente vierem a ser formadas para trabalhar a segurança.

Comunique ao síndico eventuais falhas e jamais repreenda diretamente o colaborador.

Fique na portaria apenas quando necessário, evitando bate-papos com funcionários, que estão em horário de serviço.

Contratem colaboradores, como empregadas, babás e motoristas, apenas com referências, assim como prestadores de serviços eventuais.

Evitem falar sobre a vida pessoal e compreendam as medidas de segurança adotadas pelos profissionais do condomínio.

Exijam a mesma compreensão por parte dos visitantes, mesmo que isso cause algum transtorno.

Matéria publicada na Edição 139 - set/09, Revista Direcional Condomínios