Com dedicação, seriedade e pulso firme, síndicas mulheres trazem excelentes resultados para a administração de condomínios

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“SÓ PODIA SER MULHER!” A frase, tão comum de ser ouvida no trânsito, com tratamento pejorativo às mulheres motoristas, também vale para a administração de condomínios. Porém, nos edifícios a frase é dita com sentido totalmente inverso: prédios com síndicas mulheres costumam ter excelentes resultados em suas gestões. Não há pesquisas que comprovem tal fato. Mas o que se percebe é que as mulheres são mais detalhistas e dedicadas. O resultado são condomínios com manutenção impecável e administração enxuta, com caixas saudáveis.

“Nós, mulheres, somos multitarefa. Sabemos gerir trabalho, filhos, casa, prédio. Já um homem síndico não tem tempo de resolver tudo, pois não consegue fazer tantas coisas ao mesmo tempo”, acredita a síndica Denise Sahyun Levy, reeleita em dezembro para a segunda gestão do Edifício Cascata, um prédio com 28 apartamentos e construído há 40 anos. Denise faz questão de frisar que recebeu um condomínio cheio de problemas mas que tem atuado em equipe. Diga-se de passagem, formada em sua grande maioria por mulheres. A síndica divide todas as tarefas com a subsíndica Claudia Sugai. O conselho é composto por duas mulheres e um homem. Outras moradoras também participam, seja auxiliando na compra da decoração de Natal ou orientando o trabalho de jardinagem. “Acredito que as mulheres gostam mais de participar e de palpitar. Sempre estão dispostas a fazer alguma coisa”, conta Denise.

A equipe iniciou a transformação do condomínio trocando todos os prestadores de serviços e refazendo contratos. “Tínhamos caixa negativo, o prédio não tinha conta bancária própria. Além disso, muitas coisas eram feitas sem consulta à assembleia. Aliás, obras decididas não eram realizadas e obras não decididas em assembleia eram feitas. Tínhamos rateio todos os meses e no final do ano vinha aquela conta enorme do 13º salário”, lembra a síndica. A folha de pagamento extremamente alta onerava ainda mais o condomínio: só o zelador custava R$ 3 mil por mês ao prédio, comenta Denise. No mês em que assumiu, a nova gestão baixou o condomínio e instituiu um fundo de obras. A equipe começou com pequenas melhorias, já que não havia caixa, e muita economia para pagar as demissões dos funcionários. “Adotamos procedimentos que podem parecer bobagem, mas foi com as pequenas economias que geramos um caixa. Por exemplo, compramos o vale transporte direto da SPTrans, sem intermediários. Hoje temos dinheiro para fazer a impermeabilização do térreo”, diz.

Apesar do sucesso, Denise recorda que o início não foi fácil. “Escutei muito deboche de moradores mais velhos, dizendo que não receberiam ordens de gente mais jovem. Hoje, a maioria percebe que o prédio está bem cuidado, com funcionários treinados”, constata. Ao lado da batalha por sanar as finanças do condomínio, a equipe não deixou de dar um toque feminino ao prédio. No Dia da Mães, promovem uma festa no salão e convidam todos os condôminos. Uma moradora oferece uma oficina de scrapbooking às mulheres presentes. Cada uma traz um presente e organizam também um bingo animado.

Outra síndica que não abre mão de cuidar dos detalhes do condomínio e da boa convivência entre os moradores é Ana Josefa Severino Pereira, do Condomínio Piazza di Toscana. Síndica desde que o prédio foi entregue pela construtora, há quatro anos, seus eventos já são tradição no condomínio. No ano passado, o Dia da Mulher foi comemorado com aulas de ioga, dança do ventre, alongamento e palestra com uma moradora nutricionista. Tudo regado a um farto café da manhã, comprado com o dinheiro arrecadado com a reciclagem. Para este ano, foi programado um desfile de modas. Quatro moradoras se dispuseram a servir de modelos para as roupas vendidas por outra condômina.

Ao lado das festas, Ana não relaxa da manutenção do condomínio. Acabou de reformar os banheiros do salão de festas e do espaço gourmet. “Pintamos as paredes com tinta lavável, colocamos saia nas pias para esconder o sifão, trocamos as torneiras, colocamos persianas de bambu nas janelas e adesivos decorativos nas paredes. Sempre que faço melhorias tiro fotos dos ambientes antes e depois e os moradores aprovam”, diz. Nos dois espaços Ana colocou TVs de 32 polegadas. Para o espaço gourmet, comprou pratos, talheres e copos de vidro. Em busca do melhor preço, a síndica buscou os utensílios no bairro do Pari, tradicional por vender esse tipo de material.

Dedicada ao condomínio, com cinco torres e 168 apartamentos, Ana comenta que já enfrentou preconceito por ser mulher e síndica. “Os homens são machistas. As mulheres são quem mais elogia meu trabalho. No início, eu me acabava quando recebia uma crítica. Hoje, tiro de letra”, afirma a síndica, que já foi chamada de “menina” por um morador. “Sou muito cuidadosa com o meu trabalho no condomínio. Além da minha formação como engenheira civil, tenho experiência: já são 10 anos como síndica”, aponta. Dois meses depois de casada, no primeiro prédio em que morou, Ana se elegeu síndica. Lembra que, tempos depois, recém-chegada da maternidade, trocava idéias com o engenheiro que cuidava da reforma da churrasqueira pelo terraço. Mas, o pior pedaço de ser síndica, acredita Ana, é a perda de privacidade. O marido chegou a exigir: ou ele, ou o condomínio, já que no Piazza ela era solicitada constantemente pelo interfone. “Hoje, os contatos com os moradores são feitos por e-mail ou através de funcionários. É difícil conciliar tudo, casa, crianças, condomínio. Mas, adoro o que faço e pretendo continuar”, atesta.

A paixão de Ana pelo condomínio contagiou até a família. Sua irmã, Ana Maria Severino, é síndica há poucos meses, desde que se mudou para o recém-entregue Edifício Valencia, com 96 apartamentos. Na assembleia de instituição do condomínio Ana Maria se elegeu síndica: “Gosto de cuidar e de lidar com as pessoas. Quero que o zelador sempre me passe os comentários dos moradores. É bom ouvir sugestões. Condomínio novo é uma fase difícil, com muitos itens para comprar. Agora estamos orçando os equipamentos de segurança.” Ana é arquiteta e admite que não é fácil dar conta de tantas tarefas: trabalho, casa, condomínio e os dois filhos pequenos, de três e um ano. Mas, ela sempre dá um jeitinho. Tanto que na reunião de condomínio em que se elegeu ela foi acompanhada dos dois pequenos, sem nenhum transtorno.

Mulheres em outra fase da vida, com filhos crescidos e independentes, também costumam dar ótimas síndicas. Eliana Romano, síndica do Condomínio Pátio Ibérico, tem três filhos, de 26, 22 e 19 anos. Síndica há quatro anos, ela admite que no início o marido estranhou a dedicação de Eliana ao condomínio. “Depois, ele se acostumou com minha nova rotina. De manhã cuido das tarefas domésticas e todos os dias à tarde fico no escritório do condomínio. Gosto do que faço”, considera. Enfrentar as dificuldades sem medo é uma das características de Eliana. Quando assumiu, o prédio, construído há oito anos, não tinha muro, só um alambrado. Exigiu da construtora e conseguiu o muro. “Em quatro anos tivemos quatro síndicos homens. Eles não tinham tempo para se dedicar e pediam para sair. Acredito que uma mulher tem muito mais jogo de cintura para assumir um condomínio”, diz. Com sete blocos e 160 apartamentos, o condomínio tem uma grande população de crianças e jovens. Também na convivência com essa faixa de moradores Eliana é bem sucedida. “Converso muito com eles. Só chamo os pais se eles não me derem retorno positivo. Com os adolescentes, cedi o salão de festas para eles conversarem e jogarem baralho nas sextas feiras à noite. Eles não estragam nada nem fazem sujeira. Também, combinei que se eles sujarem terão que limpar na minha frente”, conta. Mas, para Eliana, sua vitória mais importante foi a retirada do lixão que ficava em frente ao condomínio. “Fui à luta e ia pessoalmente à Subprefeitura de São Miguel pedir a retirada do lixão. Hoje, o espaço é uma praça com bancos e campo de futebol, inaugurada pelo prefeito Kassab. Consegui também com a Ilume a iluminação da rua. Sabe como é mulher, com insistência, consegui o que queria”, atesta.

Síndica de um condomínio com perfil totalmente diferente, o Edifício Cap Saint Martin, com apenas 17 apartamentos, Maria da Graça Prestes D’Ávila resume o que faz das mulheres síndicas tão especiais: “As mulheres estão acostumadas a administrar suas casas. Levo o condomínio como se fosse minha própria casa, quero tudo em ordem.” Graça acabou de restaurar a fachada e de reformar a calçada e, como em todas as obras, fez questão ela mesma de vistoriar tudo. “Quem me incentivou a ser síndica foi uma amiga, Isaura, que está na função há 18 anos. Quando falo que sou síndica muitas pessoas ficam horrorizadas. Mas digo que em primeiro lugar o síndico deve gostar do que faz. Eu gosto muito, e se dá para fazer alguma coisa pelo prédio eu não espero, faço ontem”, finaliza.

Matéria publicada na Edição 133 de março de 2009 da Revista Direcional Condomínios