As múltiplas faces do síndico

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Síndico ranzinza, democrático, paciente, amável, mandão. Parecem não ter fim as várias características dos síndicos. Resultado de suas próprias características pessoais (como sexo e profissão), o estilo do síndico é fundamental para que ele exerça - ou não - uma gestão de sucesso. "O síndico rígido não tem mais vez. Ele é visado e destituído. É preciso entender que o síndico não é síndico, ele está síndico. Seu mandato vai acabar e ele continuará sendo vizinho", analisa Maria Luisa Neves, administradora de condomínios e síndica profissional. Maria Luisa adverte que, hoje, os condomínios devem ser administrados primeiramente com bom senso: "Senão, ninguém convive. O síndico deve usar a administradora para não entrar em embate pessoal com seus vizinhos. Uma advertência, por exemplo, deve ser assinada pela administradora, para que o síndico não bata de frente com os condôminos."

Apesar de ser a figura do poder dentro do condomínio, pelo novo Código Civil o síndico perdeu muito de sua força. "O novo Código Civil visa a profissionalização de quem administra o condomínio, seja o síndico, a administradora ou um consultor. O síndico não deve mais aceitar deliberações em assembléias, mesmo que legítimas e aprovadas pelo quórum exigido, porém ilegais", sustenta o advogado e consultor jurídico condominial Cristiano De Souza Oliveira. Enfim, o síndico passa a ter sua responsabilidade compartilhada com a assembléia.

Na teoria, tudo é muito bonito. Porém, na prática o que se vê é muito síndico se envolvendo ao mínimo com as questões do prédio. "Em edifícios com um apartamento por andar, por exemplo, o síndico é praticamente imposto. A pessoa fica síndica porque é norma que exista um rodízio entre os moradores, passa tudo para a administradora e não se envolve", conta Paulo Sérgio Romani, administrador de condomínios e ele próprio síndico do prédio onde mora. A falta de interesse dos condôminos em participar da administração tem levado muitos condomínios a eleger a própria administradora como síndica. "Ninguém quer ser síndico e a assembléia decide que seja a administradora. Temos que fazer um trabalho muito bom com o zelador, já que não convivemos no prédio, e ter um suporte com um funcionário que visite quase todos os dias o condomínio", explica. Segundo o administrador, em países como Argentina e Estados Unidos essa situação é bem comum e não existe a figura do síndico.

Na opinião de Paulo, para que o síndico não se torne um cargo em extinção, ele deve reunir algumas características: procurar levar qualidade de vida para os condôminos, orientar e ter um bom relacionamento com os funcionários, ser idôneo ("afinal, ele vai mexer com o dinheiro dos outros", frisa), ter espírito de liderança e visão de manutenção. Difícil, mas não impossível.

O SÍNDICO AUSTERO
Marlene Barbosa é síndica há oito anos do Condomínio Edifício Alvorada, um prédio com 204 apartamentos na Avenida Nove de Julho, em São Paulo. Marlene se orgulha de manter a taxa condominial no mesmo valor durante cinco anos apesar do alto nível de inadimplência. Conseguiu trocar os elevadores, montou uma boa academia e cuida muito bem da limpeza. Ela própria se considera "durona". "Mantenho o prédio em ordem a custa de muitas advertências e multas. Trato o condomínio como uma empresa, não faço 'corpo mole' e não volto atrás numa decisão", define. Apesar de austera, Marlene administra com a equipe do conselho. "Mas, a palavra final é a minha. Afinal, eu sou a responsável e administro de forma clara e transparente", finaliza a síndica.

O SÍNDICO CENTRALIZADOR
Também é comum o síndico que não gosta de delegar responsabilidades. "Ele reclama do excesso de serviço, mas não delega nada", define Maria Luisa Neves, administradora e síndica. O síndico que gosta de trabalhar sozinho cuida das cotações de serviços, orienta e supervisiona os prestadores de serviços e só delega a parte financeira para a administradora. Além de sobrecarregado, o síndico "chefão" perde a chance de ouvir outras opiniões e contar com a ajuda de moradores dispostos a auxiliá-lo.

O SÍNDICO "NEM AÍ"
Na opinião de muitos administradores de condomínios, o pior síndico é aquele que "não está nem aí". Delega tudo para a administradora, se isenta de responsabilidades e nunca sabe de nada. Quem põe a mão na massa é a administradora. Uma variação do mesmo tipo é o síndico "Rainha Elizabeth": quem manda na verdade é o "primeiro-ministro", cargo exercido pelo sub-síndico. O síndico se limita a assinar.

O SÍNDICO PARTICIPATIVO
Criar comissões de moradores dispostos a participar e ouvir muito o conselho faz parte do estilo de administração desse síndico. A administradora Maria Luisa Neves cita o exemplo de um condomínio que conta com uma comissão de administração, uma de obras e o conselho consultivo. "São nove pessoas, mais o síndico e a administradora, trabalhando pelo condomínio. É bem mais simples administrar dessa forma. Desde que o grupo seja coeso, e um não fique se intrometendo na área do outro, dá certo", conta. O grupo se reúne trimestralmente e traça diretrizes de trabalho. "O prédio estava sem manutenção há muito tempo. Hoje, estamos concluindo até a obra de uma piscina", completa.

O SÍNDICO PROFISSIONAL
Silvana Maria Bedoian morou oito anos no Condomínio Torre Blanca, em Santana, e foi síndica. Mudou-se do prédio, manteve as amizades e foi convidada para voltar a ser síndica. A experiência foi tão bem sucedida que Silvana passou a ser síndica profissional. "Cheguei a trabalhar com quatro condomínios ao mesmo tempo", conta. No Torre Blanca, ela conta que é muito mais fácil fazer o trabalho de síndica agora do que quando morava. "Quando mora no prédio o síndico é confundido com porteiro, eletricista, técnico de TV", lembra. Além disso, ressalta, o síndico profissional não encontra os moradores diariamente, o que evita atritos e reclamações.

Para Silvana, o segredo de ser um síndico respeitado é o diálogo: "Escuto sempre todas as partes envolvidas e resolvo tudo na base da conversa, sem multas." Saber manter os gastos, não ultrapassando os limites do caixa, e não aumentar excessivamente a taxa condominial também é levado em conta. A prova de que o entrosamento entre os moradores é possível em condomínios é a amizade que Silvana ainda nutre pelos moradores do Torre Blanca. "Organizamos dois encontros por ano. Começamos quando todos tinham filhos pequenos. Hoje, muitos já estão casados e continuamos a nos reunir."

Revista Direcional Condomínios