Entrevista: Na seara do bem, “as pessoas devem ser educadas para receber”, diz filósofo

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O educador João Luiz Muzinatti é otimista com o momento atual vivido pela sociedade no País. Ele acredita que as pessoas estejam buscando cada vez mais fazer o bem, o melhor possível dentro de suas possibilidades, caso dos síndicos e síndicas. “Nunca quisemos tanto o prazer para nós, mas nunca quisemos, igualmente, tanto quanto hoje causar coisas boas e sermos notados como pessoas de valor.”

O caminho não é tão simples, diz. Alguns percalços se impõem, como certa falta de limites e também a persistência de dois comportamentos anacrônicos que ainda se observa entre os brasileiros diante de um compromisso. “Do lado daquele que se beneficia, há uma grande expectativa pelo que o outro possa fazer, mas sem que se queira assumir corresponsabilidades ou mesmo remunerá-lo por isso. E do lado de alguns que são designados a fazer algo, muitas vezes se vê o raciocínio ‘de que eu não ganho pra isso’.”

Ambos os traços depõem contra a cidadania e o profissionalismo, analisa o educador. Nos demais trechos destacados em entrevista a seguir, João Luiz fala que o bem é algo que o homem busca desde os primórdios da Filosofia, de forma a se alcançar o que de melhor ele pode fazer pela vida.

O QUE É O BEM?

Ele pode ser considerado como uma síntese de todas as virtudes que podemos apresentar. Tudo aquilo que possui valor ou dignidade. Se tivéssemos no campo material, ao falarmos em bens, estaríamos tratando de algo como casas, carros etc. Num paralelo como o campo moral, o bem poderia representar o valor de nossas atitudes. É uma discussão que atravessa milênios. Para Platão, o bem seria o auge da perfeição, aquilo que de maior podemos perseguir, a forma ética suprema. Mas, também, o que podemos desejar de melhor para nós. O bem seria ainda a fonte de beleza, compreensão e verdade em tudo o que existe. O objetivo de todo homem deveria ser a busca do sumo bem. Já em nosso mundo, fazer o bem representa proporcionar sensações agradáveis ou condições mais dignas de vida às pessoas.

O ‘BOM’ NEM SEMPRE COMBINA COM O BEM

Mas nem sempre fazer algo bom para alguém implica em uma prática do bem. Aquilo que nos é conveniente (e bom) somente se constituirá em um bem quando não se contrapuser à vida digna em sociedade.

EDUCAÇÃO E CULTURA

Como podemos chegar a isso? Educando-se para a cidadania. As pessoas devem ser educadas para receber, assim como para dar. A perspectiva de se proporcionar vida mais digna a outrem deve estar associada, via educação, à de que, se hoje somos ajudados, amanhã ajudaremos e vice-versa. Dar e receber seriam eventos de mesma natureza, correm em sentidos opostos, mas na mesma direção, com magnitude e intermitência.

AJUSTES

Não há dúvida de que as pessoas buscam o bem, para si e para os outros. O que está em falta hoje é a noção de medida. Na verdade, aquilo que perseguimos como alvo troca de posição a todo instante. Os valores da modernidade se intensificaram e não podem ser contidos numa mesma embalagem com tamanho e sentido definidos. Acho, até, que nunca se pensou tanto nisso. Veja as campanhas políticas. Seu apelo maior é a honestidade (ou a não honestidade do adversário), muito mais do que a construção cidadã de um mundo onde a vida seja viável. Queremos ter gente de valor, queremos o outro como gente de bem, e queremos poder parecer gente de bem.

De outro modo, o filósofo Friedrich Nietzsche perguntaria: por que fazer o bem? O bem não seria uma invenção de quem não vive sua potencialidade humana e coloca atributos perfeitos e eternos a serem alcançados em outro tempo ou outro mundo? Pessoas que teriam inventado isto justamente porque não conseguem ser felizes no mundo real em que vivem? Não se trata aqui de depor contra o bem, mas de chamar atenção para que as pessoas façam o melhor que podem dentro daquilo a que se propõem sem abdicar de si. Às vezes é preciso até ser um pouco egoísta neste percurso e impor limites.

Matéria publicada na edição - 196 de nov/2014 da Revista Direcional Condomínios