Quinta, 15 Fevereiro 2018 00:00

Umidade em edificações: Nem tudo é problema de impermeabilização

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Como proceder quando da identificação de umidade em seu condomínio?

Um dos problemas mais incidentes em edificações habitacionais e comerciais é a umidade. Isso se deve ao fato dela ser proveniente de diversas causas e, também, por ser necessário ter um sistema com desempenho 100% conforme – se este for 99%, a água encontrará caminho no 1% irregular.

Uma ideia equivocada permeia a mente dos leigos e de alguns profissionais da área, de que se evita umidade nas edificações apenas com sistemas de impermeabilização. É uma ideia limitada, que pode trazer graves consequências na hora de reparar algum problema de umidade, tais como retrabalho, gastos desnecessários, demolições indébitas etc.

Analisando a Tabela 1 abaixo, podemos identificar quais são as origens prováveis da umidade, e pela vivência prática percebe-se que fenômenos como 'higrospiscidade' [capacidade que certos materiais possuem de absorver água], condensação e falhas de uso, operação e manutenção, são pouco conhecidos até por profissionais atuantes na área.

Tabela 1 - Origem da umidade em edificações

Origem

Causas

Construção

Execução de acabamentos sem que haja secado o concreto, argamassa, tijolos etc.

Precipitação

Penetração da chuva, garoa, orvalho ou neve.

Terreno

Ascensão capilar do lençol freático, ou água de precipitação infiltrada no solo.

Higrospicidade

Retenção de água de sais presentes no revestimento.

Condensação

Ambientes com pouca ventilação, com muita geração de vapor, paredes muito frias etc.

Uso, operação e manutenção

Lavagem de ambientes em locais não impermeabilizados, falta de manutenção preventiva conforme NBR 5647 (ABNT, 2012) etc.

Instalações hidrossanitárias

Rompimento de tubos e conexões, transbordamento de calhas etc.

Causas fortuitas

Defeitos de construção, falhas de equipamentos, erros humanos (acidentes).

Fonte: GROSSI, 2018 adaptado de HENRIQUES, 1994.

Outra prática comum nessa área, bastante equivocada, é de apenas tratar o sintoma e não a causa. Por exemplo, a Figura 1 abaixo ilustra um caso de descascamento da pintura devido à umidade ascendente provinda do jardim. Já presenciei casos como esse serem reparados com a retirada da pintura solta, a aplicação de algumas demãos de argamassa polimérica (impermeabilizante) e refeita a repintura do local. Essa ação apenas cria uma barreira externa que não impede a ascensão de água pelo revestimento ou alvenaria (Confira na Figura 2, em seguida à Figura 1), o que permitirá que o descascamento volte a ocorrer após algum tempo.

Figura 1 - Vista de descascamento de pintura devido a umidade ascendente

Fonte: GROSSI, 2018.

Figura 2 – Esquema de umidade ascendente

Fonte: THOMAZ, 2016.

 

Portanto, antes de realizar o reparo de qualquer manifestação patológica, deve-se realizar uma investigação da causa e tratá-la, em lugar de apenas tratar seus sintomas. Para isso, recomenda-se a contratação de engenheiros civis com especialidade em patologia, perícia, engenharia diagnóstica, tecnologia de construção ou correlatos. Evite, também, postergar o reparo, porque provavelmente serão mais onerosos e mais complicados de resolver.

Referências

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 5674: Manutenção de Edificações - Requisitos para o sistema de gestão de manutenção. Rio de Janeiro, 2012.

HENRIQUES, Fernando M. A.. Humidade em paredes. 4. ed. Lisboa: Laboratório Nacional de Engenharia Civil, 1994.
THOMAZ, Ercio. Aula de Umidade. Curso de Patologia das Construções. Mestrado IPT, 2016.


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Marcus Vinícius Fernandes Grossi

Engenheiro Civil, é doutorando em tecnologia da construção pela USP; mestre em Tecnologia da Construção de Habitações pelo IPT; especialista em Excelência Construtiva e Anomalias pelo Mackenzie; em Gestão e Tecnologia da Construção pela POLI-USP; Inspetor de Estruturas de Concreto pelo IBRACON, ABECE e ALCONPAT. Atua como Perito Judicial, Assistente Técnico da Defensoria Pública e Ministério Público do Estado de São Paulo; professor universitário; palestrante de cursos de perícia e patologia das construções. É sócio-gerente da Fernandes & Grossi Consultoria e Perícias de Engenharia, onde atua com consultoria, perícias de engenharia, i nspe&cce dil;ão predial, entrega de obras, auditoria de projetos, normatização técnica, desempenho e qualidade das construções. Atualmente é membro da Divisão Técnica de Patologia das Construções do Instituto de Engenharia e associado da ALCONPAT - Associação Brasileira de Patologia das Construções. Mais informações: marcus@fernandesgrossi.com.br.