Lorenzo Del Maffeo - Edifício Itália

São Paulo a seus pés

Conheça a história do Edifício Itália, um marco da cidade, que está passando por uma restauração da fachada.


São Paulo a seus pés

Por Luiza Cristina Oliva

Apesar da poluição, dos ambulantes e da ameaça da violência, a esquina das Avenidas São Luís e Ipiranga, no centro de São Paulo, ainda guarda o ar chique e sofisticado que marcou a região nos meados do século passado. Nesse endereço fica o Edifício Itália, inaugurado em 1965 e legítimo representante dos anos de ouro do centro da cidade. Foi a época em que morar nos espaçosos apartamentos da São Luís era de extremo bom gosto. São Paulo crescia e ganhava, definitivamente, status de metrópole. Imponente, o Itália representa fielmente esses anos áureos e mantém, ainda hoje, as características que o tornaram um dos cartões postais mais famosos da cidade.

O edifício foi idealizado pelo Circolo Italiano, que ocupava um casarão no mesmo terreno. O projeto do prédio é do arquiteto suíço Adolf Franz Heep, na época professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo do Mackenzie. São 41 pavimentos, três ocupados pela sede do Circolo Italiano, que é proprietário de 17,5% da fração ideal do condomínio. Fundado por um grupo de imigrantes italianos com o objetivo de preservar a cultura e tradições do seu país de origem, o Circolo tem restaurante, salão de festas e área social, além do Teatro Itália, com capacidade para 400 lugares. No Itália, os dirigentes do Circolo receberam personalidades como a primeira ministra da Índia, Indira Gandhi, a rainha Elizabeth II da Inglaterra e o presidente italiano Carlo Ciampi.

Os 151 metros de altura da torre de design ovalado a tornam, ainda hoje, uma das estruturas mais altas do mundo em concreto armado. No último andar, o restaurante Terraço Itália é endereço certo para que turistas, e mesmo paulistanos, desfrutem de uma das mais lindas vistas da cidade. Números gigantescos marcam a construção do Itália: o peso total da torre é de 38.610 toneladas e sua fundação, profunda, empregou 276 estacas. Com área construída de 52 mil metros quadrados, tem um fluxo diário de oito mil pessoas. Cerca de metade são visitantes e o restante funcionários das empresas que funcionam no edifício (renomados escritórios de advocacia e agências de turismo, principalmente). O prédio tem 19 elevadores, cinco para uso privativo do Circolo Italiano e 14 para o restante do edifício.

Administrar essa cidade é uma tarefa que exige fôlego. Lorenzo Del Maffeo é o segundo síndico do Itália. Isso mesmo: em 40 anos, o edifício teve, até agora, dois síndicos. De 1965 até dezembro de 2003, quem exerceu o cargo foi Renato Cecchi, proprietário de uma das construtoras e responsável técnica pelo prédio, a R. Cecchi & Companhia. Com a morte de Cecchi, Lorenzo, que já era conselheiro do condomínio e primeiro tesoureiro do Circolo, assumiu o posto. “Para administrar essa cidade é preciso entender de leis, impostos, manutenção e muito mais”, admite. O edifício tem 20 empregados próprios, para a manutenção preventiva e emergencial, e mais 60 terceirizados (limpeza e conservação, portaria, segurança e ascensoristas). “Num prédio com esse fluxo de pessoas temos que ser dinâmicos. Se um telefone fica mudo, temos que ter um técnico de telefonia que conserte na hora”, comenta.

Além da manutenção diária, o Itália exige cuidados especiais. Afinal, é um edifício tombado pelo patrimônio histórico. Os 21 mil metros quadrados da fachada do Itália estão sendo restaurados pela Companhia de Restauro, a mesma empresa que restaurou o Museu do Ipiranga. Segundo o síndico Lorenzo, o material com que o prédio é revestido, denominado fulget, com o passar dos anos adquiriu patologias e perdeu suas características originais. “A superfície, áspera, será reconstruída e hidrofugada, isto é, lavada com bactericidas. A previsão é que a obra seja concluída em 18 meses. Queremos apresentar um edifício novo para a cidade”, informa. A obra, orçada em R$ 1 milhão e 400 mil, será paga em 30 meses com recursos do próprio condomínio. O síndico, porém, espera ainda conseguir patrocínios para pagá-la, através da Lei Rouanet. Outro projeto com que Lorenzo sonha é a reforma do Teatro Itália. “Se conseguir patrocínios, vou transformá-lo no teatro mais bonito de São Paulo”, afirma.

Que não se duvide da vontade do síndico. Nascido na Itália, por força do trabalho numa companhia multinacional conheceu muitas capitais mundiais. Porém, é um apaixonado por São Paulo e, olhando a cidade a seus pés, do alto do 41º andar do Terraço Itália, elogia nossa engenharia e comenta que não ficamos atrás de nenhuma outra grande metrópole. “Se cada cidadão fizer um pouquinho por São Paulo, como eu procuro fazer no Itália, tentando resgatar a nossa cultura, nossa cidade será cada vez melhor”, diz.


Matéria publicada na Edição Nº 89 em junho de 2005 da Revista Direcional Condomínios


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