Respeite limites e viva bem no condomínio

Apesar de ser pronunciada constantemente, quase nunca se pára para pensar no significado da palavra condomínio. Pelo Aurélio, sua definição exprime exatamente a abrangência de seu emprego: “domínio exercido juntamente com outrem; co-propriedade”. Na prática, viver em condomínio nem sempre é tão simples como parece. Se fossem enumeradas, as razões que geram desentendimentos neste exercício de compartilhar um espaço comum, teríamos uma lista quilométrica. Aqui seguem alguns motivos de confusão, que não se limitam às quatro paredes do apartamento: barulho, disputa pela vaga da garagem, animais de estimação e desavenças entre crianças e adolescentes (estes são exemplos mais recorrentes).

Quem está de fora pode achar que as razões citadas acima são banais e que de maneira nenhuma seriam capazes de gerar brigas e problemas de relacionamento entre condôminos e funcionários do prédio. Mas quem mora em condomínio sabe muito bem que qualquer probleminha pode tomar dimensões inesperadas e virar um “problemão”, dependendo do tratamento que for dado ao caso. “As crianças, até por uma questão do nosso sistema educacional, não têm limites bem estabelecidos, o que dificulta a convivência na área comum. Existe também briga por causa da garagem. Como São Paulo tem um problema sério de estacionamento, os visitantes não conseguem parar na rua, ou têm medo de deixar o carro do lado de fora, e os condomínios têm um número limitado de vagas. Não dá para o pai, a mãe ou o namorado parar na garagem do prédio”, diz a psicóloga Regina Blau, coordenadora e consultora de Recursos Humanos, citando alguns casos de discórdia.

A entrada de não-moradores é outra fonte de desentendimentos, de acordo com Regina. “A entrega de pizza é um problema clássico. Todos sabem que existe um risco em deixar o entregador subir ao apartamento, mas o morador insiste e sempre quer dar um jeitinho. Os adolescentes e as drogas são questões difíceis de se administrar também. Vários síndicos me perguntam até onde podem ir e qual é a implicação legal, porque o jovem que usa droga pesada atrai traficantes, deixando o condomínio extremamente fragilizado. Para o prestador de serviços, o condomínio pode impor regras, mas para o visitante é mais complicado, já que o próprio morador autoriza a entrada dele”, exemplifica a psicóloga.


Regina atribui as dificuldades a uma incapacidade em cumprir as regras e às diferenças de comportamento. “Existe uma falta de respeito do condômino em relação ao regulamento, por falta de conhecimento, ou por uma certa negligência e vontade de fazer as coisas da sua própria forma. Outro aspecto é o das diferenças sociais e culturais, inerentes ao ser humano. Quando você tem várias pessoas com opiniões diferentes é natural que haja conflitos. Agora, se não existe uma gestão forte para administrar as brigas, aí a situação se agrava”, afirma.

A psicóloga Eneida Lima, coordenadora de Recursos Humanos da Itambé, concorda. Para ela, falta consciência dos moradores em relação às obrigações no condomínio, já que eles mesmos burlam as próprias regras. “O funcionário, que é obrigado a fazer com que as normas sejam cumpridas, passa por um conflito. Ao mesmo tempo tem de satisfazer o cliente e conciliar as obrigações de sua função. Ele tenta agradar, mas isso, muitas vezes, significa infringir uma regra”, diz.

As falhas existentes no regulamento interno do condomínio também pioram as relações entre moradores e funcionários. Além disso, esse documento, segundo Regina, deveria ter outros aspectos incorporados. “O regulamento é elaborado quando o condomínio é inaugurado, e posteriormente, não é atualizado. Você tem uma série de assembléias, mas as emendas não passam a constar do regulamento”, conclui.

Mesmo com um regulamento bem feito e com todas as especificações possíveis, não basta que apenas o morador tenha conhecimento das regras que valem no condomínio. A equipe de funcionários também deve estar bem informada, já que ninguém vivencia mais de perto do que eles a rotina do prédio. “A equipe de funcionários também tem de estar preparada para lidar com esse regulamento. Eu sempre pergunto, nos meus cursos, quem já leu o regulamento do condomínio onde trabalha. A resposta varia de 3% a 5%. Como eles nunca lêem o regulamento, então executam as regras pelo que ouviram falar e pelo que é passado pela própria equipe. Se você não tem as normas internalizadas, de uma maneira correta, fica difícil cobrar”, conta a psicóloga.

Outra incoerência apontada por Regina é a não-participação dos trabalhadores do prédio na tradicional reunião de condomínio. “A equipe de funcionários tem uma série de dúvidas e uma percepção muito grande de vários problemas do condomínio, mas eles nunca têm um espaço para colocar esse conhecimento. Em geral, os funcionários não são convidados a participar das assembléias porque os moradores querem fazer queixa deles”, comenta

Comunicando a gente se entende

Para morar em paz e exercer a “co-propriedade” como deve ser – com respeito e dignidade –, comunicação é a palavra-chave, já que a vida no condomínio nada mais é que uma microamostra do viver em sociedade. Ter em mente a abrangência da palavra coletividade também é fundamental para manter um bom nível de relações dentro do edifício.

Para o advogado Cristiano de Souza Oliveira, especialista em direito civil, o brasileiro ainda não tem consciência do que é viver em sociedade - nem no trabalho e muito menos no dia-a-dia de um condomínio. “Só começamos a pensar em coletividade, após meados da virada do século, com o trabalho em conjunto, dentro de equipes. E isso acontece, na maioria das vezes, porque estamos recebendo por isso, ou seja, existe uma sanção. Se eu não trabalhar em equipe, serei despedido e vou deixar de ganhar dinheiro. Estamos sempre vinculados a uma questão financeira”, constata Oliveira.

O advogado acredita que essa prática, ou melhor dizendo, essa obrigação de viver em grupo, no ambiente profissional, acaba sendo transferida para o condomínio de maneira desastrosa. “No condomínio, nunca se teve um pensamento social. Agora é que ele começa a existir. A consciência de que você pode prejudicar o seu vizinho é reflexo de um pensamento macro. Hoje é maior o número de atividades solidárias, tanto é que 2001 foi o ano do voluntariado”, diz.

A psicóloga Regina Blau concorda e diz que há uma dificuldade de comunicação e falta de coletividade. “As pessoas estão muito voltadas para si, para os seus problemas. Aí, quando há uma questão no condomínio, fica difícil ter uma atitude coletiva”, afirma a psicóloga. Regina acredita que os problemas de relacionamento no prédio, passam pela questão “do que é o direito de cada um”, além de haver uma certa dificuldade de lidar com os deveres da vida em comum. “Se você vir o significado da palavra condomínio, perceberá que está envolvido o “viver” em comunidade, e como brasileiros, estamos longe de conseguir isso. É uma questão social e política nossa. Vivemos num país onde político é muito mal visto, e ser síndico é ter uma atuação política. Num condomínio, muitas vezes, as pessoas não querem assumir uma gestão porque isso implica entrar em contato com conflitos inerentes à relação humana. Vivemos hoje um momento em que só queremos o prazer, o direito e o lado bom das coisas, não queremos envolvimento porque significa lidar com diferenças e conflitos”, explica.

Oliveira diz ainda que os problemas de relacionamento no prédio, são reflexo da nossa própria sociedade. “Como no trabalho você é forçado a ser social, quando entra em casa, quer descansar e acaba sendo anti-social. Nem fala bom dia para a pessoa que está no elevador com você. Olha para o teto e para o lado, menos para o vizinho. Já no trabalho, se pegar o elevador com o chefe, você olha para a carinha dele e fala bom dia, boa tarde, boa noite e, se o senhor espirrar, saúde”, diz em tom de brincadeira. Mas Oliveira afirma que a prática da coletividade, apesar de estar “engatinhando”, como ele mesmo define, já começa a ficar evidente em algumas ações, como na coleta seletiva de lixo, por exemplo. E essa união dos moradores em torno de causas comuns pode melhorar a qualidade do convívio.

Para aprimorar a comunicação, a psicóloga e consultora de RH, Regina Blau, sugere que as informações resultantes das reuniões de condomínio e outras decisões tomadas sejam transformadas em circulares objetivas e agradáveis de se ler, ou em informativos que possam ser fixados na área comum. “Murais bem-feitos ou jornais do condomínio passam as informações de uma maneira muito eficiente”, diz.


Matéria publicada na Edição Nº 51 em abril de 2002 da Revista Direcional Condomínios                   


>> Leia mais sobre este assunto

 


  Fornecedores:

          - Advocacia


Adriana Jazzar

Geógrafa graduada pela PUC de São Paulo com MBA em Gestão Ambiental e Mestre em Tecnologia Ambiental pelo IPT. Leia artigos

Ana Luiza Pretel

Advogada, administradora de empresas, palestrante, professora universitária. Leia artigos

Cristiano de Souza Oliveira

Advogado e consultor Jurídico na área condominial,sócio consultor da DS&S Consultoria e Treinamento Condominial. Leia artigos

Edson Martinho

Engenheiro Eletricista, presidente da ABRAEL e diretor-executivo da Abracopel. Leia artigos

Hernán Vilar

Psicólogo graduado pela UMESP e Pós- Graduado em Administração de Empresas pela FGV. Leia artigos.

Luís Renato Mendonça Davini

Graduado em Ciências Jurídicas pela Universidade São Francisco, o delegado Luís Renato é consultor de segurança da Asertec. Leia artigos.

Kelly Remonti

É síndica Condomínio Top Village, localizado em Alphaville, Grande São Paulo. Leia artigos.

Michel Rosenthal Wagner

Advogado, membro técnico das vice-presidências de Sustentabilidade e de Administração Imobiliária e Condomínios do Secovi em São Paulo. Leia artigos

Nelson Luiz Raspes

Psicólogo com formação em Dependência Química. Atua há treze anos junto ao Centro de Tratamento Bezerra de Menezes. Leia artigos

Paulo Caldas Paes

Advogado formado pela Universidade Paulista (UNIP) e autor de diversos artigos jurídicos na área imobiliária. Leia artigos

Ricardo Karpat

Diretor da Gábor RH, Administrador de Empresas, com experiência de 12 anos no segmento de condomínios. Leia artigos

Roberto Boscarriol Jr.

Graduado em Engenharia pelo Instituto Mauá de Tecnologia. Formado em 1972

Roberto Flores Freitas

Oficial da Reserva da Polícia Militar do Estado de São Paulo; Sócio-proprietário do Grupo Alpha Serviços

Rodrigo Karpat

Advogado e especialista em Direito Imobiliário e administração condominial. Leia artigos

Rosely Benevides de Oliveira Schwartz

É autora do livro Revolucionando o Condomínio, professora do curso de Administração de Condomínio ministrado pela EPD. Leia artigos

Cadastre-se e receba nossos informativos